7Na falta de um lugar mais reservado para namorarem, descobriram um cinema que passava um único filme e num preço bem acessível. Quase toda semana passavam por lá. Não agüentavam mais ouvir as músicas da trilha sonora. A mulher que vendia os ingressos já os conhecia e os estimava muito. Quando sumiam, com certa ousadia perguntava o motivo. Mas, não iam ver filme algum. Aliás, como era um péssimo cinema, outros homens também iam satisfazer suas vontades.
Conversavam, faziam planos e ficavam horas se beijando. Por vezes eram interrompidos por cantadas ou insinuações de o todo tipo de homens que procuravam só satisfazer seus desejos. Não davam importância e nem ligavam para isso. Ao menos Danilo se negava a tudo aquilo. Júlio se envolvia em situações duvidosas.
- Este velho já está me tirando do sério! Será que ele não vê que está sendo inconveniente demais. A gente não vai fazer nada com ele!
- Tá foda mesmo Danilo. Mas liga não, relaxa!
- Hum...
- Vou ao banheiro rapidinho amor.
- Ok!
- Caramba. Nem te conto!
- O que foi, Júlio?
- Não tem aquele velho que estava aqui?
- Ahan!
- Então. Eu estava no banheiro e ai ele chegou perto de mim e pediu para eu chupá-lo.
- (Intrigado) E ai? Você fez o quê?
- Ah! Eu disse para ele que topava e me abaixei para chupar. Quando ele estava gostando eu dei uma mordida bem forte no pênis dele. Ele ficou lá no chão se contorcendo de dor.
- (Indignado e confuso) Como assim, garoto? Não acredito que você fez isso... Que loucura!
- Estou falando sério!
- Então vamos embora, neh? Vai que ele se recupera e volta. Vai querer bater na gente!
- É! Vamos!Aquela situação de fato deixou Danilo muito intrigado. Não sabia muito no que acreditar. Será que Júlio havia feito realmente aquilo ou mentiu? E por que mentiria? Não sabia nem o porquê dele ter contado o ocorrido. Mas, enfim, eis que surge a primeira dúvida. A primeira leve desconfiança. Não se pode confiar cegamente em alguém. De certa forma, Danilo estava aprendendo isso.
O cinema também reservava outras aventuras e ousadias. Certa vez entraram os dois no banheiro e sem se importarem com a entrada de alguém se amaram como duas crianças se descobrindo. O perigo de alguém entrar repentinamente os excitava. Chupavam um ao outro com uma força e vontade tremenda. Quase transaram ali mesmo. O gozo foi inevitável.
8 Cada dia que não se encontravam era um martírio. Às vezes não se viam por mais de uma semana devido às obrigações de ambos.
Havia um bom tempo que não se encontravam. Mais ou menos duas semanas. Marcaram na casa de Júlio. Danilo estava com uma gripe fortíssima. Mesmo com febre e com extremo cansaço ao invés de se dirigir ao médico foi encontrar seu amado. Júlio sem saber da situação leva um susto ao saber que Danilo estava doente. Não se conforma, mas cuida dele como uma enfermeira amante de seu exercício. Combinam de ver um filme. Na época, “O segredo de Brokeback Mountain” era a sensação. Assistem quase tudo juntos, contudo no final Danilo dorme no colo de Júlio. O cansaço era grande e a febre havia aumentado.
- Ei, você dormiu!
- É... E nem vi o final do filme. O que aconteceu?
- Ah, aquele que você disse que era a “passiva” morre no final. Uns caras matam ele.
- Caramba. Que horror! Depois vou ver de novo. Sempre sobra para a “bicha” no final das contas. Ninguém merece!
- (Risos) Você está melhor? Parece que ainda está com febre. Deixa eu pegar um pano gelado. Peraí.
- Tá bom!
- Você é louco mesmo. Vir para cá estando doente deste jeito.
- Ah, tranqüilo. Não estou morrendo. E além do mais, tinha um tempo que a gente não se via. Eu tinha que vir. Estava com saudades!
- Eu também estava morrendo de saudades de você! Me beija!
9 Estavam no mês de maio. Outra viagem estava marcada. Porém, desta veze Júlio não iria. Seria difícil convencer sua mãe mais uma vez. A outra havia sido muito recente. Danilo iria sozinho.
No dia do embarque, Júlio vai se despedir. Todos se aprontavam para subir no ônibus e partir. Enquanto isso não acontecia, Danilo conversava com seus amigos e Júlio se entrosava. Renato indaga porque Júlio não iria nesta viagem e tenta o convencer a ir com todos. Ele hesita e diz que não estava preparado no momento. Não havia trazido bagagem e nem dinheiro. Confabulações e mais confabulações, Danilo consegue uma vaga no ônibus para Júlio e consegue finalmente convencê-lo a ir. Danilo estava com dinheiro para ambos e Renato poderia emprestar algumas roupas. Tudo resolvido e o ônibus têm a autorização para partir.
A viagem estava sendo muito proveitosa para ambos. Desta vez uma cidade do interior, mas que dava para se divertir bastante. O evento estava mais organizado que o anterior. Até Júlio estava participando dos debates e discussões.
Todas as noites, após todas as obrigações, a comissão organizadora preparava uma sessão cultural. Mostravam as danças típicas da região, realizavam baladas e rodas de conversa. Enfim, um divertimento a parte que fugia da seriedade do evento. Certa noite, depois do último debate do dia, Júlio não estava com vontade de assistir a sessão cultural e disse que voltaria para o alojamento. Danilo por sua vez, disse que iria assistir, mas que logo voltaria. Júlio retornou um tanto indignado.
A noite cultural estava bem interessante. Passaram-se algumas horas e Danilo ainda estava a assistir. Porém, a lembrança de que Júlio o estava esperando veio a cabeça. Deveria ir ficar com ele ou convencê-lo a ficar com todos. Indiretamente, Danilo provoca a segunda discussão do casal.
- Porra Danilo! Onde você estava?
- Eu estava assistindo a sessão cultural, ué? Eu disse que estaria lá. Só que eu me empolguei e esqueci da hora. Está muito interessante!
- Então quer dizer que você esqueceu de mim?
- Não é isso, amor. É porque está muito legal mesmo. Acabou prendendo a minha atenção.
- Quando eu disse que viria para o alojamento era para você voltar comigo. Não era para ir para a festa. Ficar se divertindo sem mim. Esqueceu mesmo que eu existo!
- Ai, Júlio, sinceramente eu não entendi que você queria voltar comigo. Não poderia ser mais direto? Eu quis assistir a noite cultural e depois voltaria para ficar com você. Que mal tem nisso?
- A questão é que você esqueceu de mim aqui. Eu fiquei horas esperando você e nada de você aparecer. Me senti sem importância para você! (fixando o olhar em Danilo e falando com alta seriedade)
- Não me olha assim! Você entendeu tudo errado. Desculpa. Eu realmente fiquei muito tempo lá, mas não esqueci de você e muito menos acho que você não tem importância para mim. Eu vim te chamar para ficar lá com a gente!
(Silêncio) Danilo vira de costas para Júlio e deitado chora bem baixinho. Um choro quase sussurrando. Um sentimento de culpa e de injustiça o invade. Não havia feito nada demais.
- Danilo! Vira para mim. Olha para mim!
- (Danilo vira-se e olha fixamente para Júlio)
- Vem me dá um abraço!
- Desculpa! Eu nunca ia esquecer de você. Você é tudo para mim! Eu te amo! (desabando em choro)
- Não chora! Me desculpa também. Eu sou muito insensível! Não gosto de brigar com você! Eu te amo!
- Vamos para a festa?
- Vamos! Uma festa “trans” no último dia do evento era o que todos comentavam. Os homens deveriam estar vestidos de mulher e as mulheres de homem. A princípio Danilo e Júlio não participariam. Não usariam roupas femininas, pois não tinha levado. Entretanto, as amigas de Danilo insistiram para vesti-lo. Estavam empolgadas porque ele tinha um corpo feminino e um rosto delicado. O cabelo grande iria ajudar. Ficaria bem menina. De fato estavam certas. Usando uma blusa, uma saia e uma sandália, ele havia ficado bonita. Júlio acabou indo no embalo e vestiu-se também.
Agora teriam de inventar um nome para cada personagem. Renato como era negro, gordinho e estava bem caricato com um batom vermelho reluzente apelidaram de “Rose soca-soca”. Júlio por sua cara de quem adorava uma “pegação” apelidaram de “Drink esperm”. Danilo foi o mais difícil. Não conseguiam pensar em nenhum apelido. Sua vestimenta não estava caricata para tal. Leandro e Isabella deram a idéia de “Letícia” porque Danilo havia ficado com cara de mulher safada.
Na festa, todos se divertiram. O trio “Rose soca-soca”, “Drink sperm” e “Letícia” foram a sensação. Todos comentavam. Em especial, Danilo chamava mais atenção. Suas amigas estavam encantadas com o jeito delicado e feminino que ele havia dado a personagem. De fato sabia ser uma mulher com estilo.
No final da festa, todos voltaram juntos para o alojamento. A universidade onde estavam hospedados possuía um campus grande e muito bonito. As construções históricas se misturavam com outras mais modernas, sem contar os jardins e rios que envolviam o lugar. Em um gesto inocente de eterno apaixonado, Danilo agarra Júlio por trás e desperta um desejo inesperado entre os dois.
- Ei, garota! Eu estive olhando para você a festa inteira e você nem me deu bola!
- Eu não dou confiança para meninas intrometidas feito você. E para de me agarrar. Eu não quero nada com você!
- Ah! Deixa eu te abraçar assim mais um pouquinho. Está muito gostoso. Você assim de “sainha” curta está uma delícia. Me dá um beijo! Chegaram no alojamento e foram direto para seus aposentos. Danilo despertou em si mesmo um desejo jamais sentido. Estava com vontade de inverter os papéis. Entre o casal, Danilo era sempre passivo e Júlio ativo. Neste dia, as coisas mudaram. Como um adolescente virgem, Danilo realizou seu desejo. Júlio havia gostado, porém pela segunda vez deixou em Danilo certa desconfiança. Júlio havia dito que jamais tinha sido passivo, contudo sua performance para um iniciante foi perfeita. Gozou em questão de minutos. Antes mesmo de Danilo.
A festa “trans” havia terminado, mas Júlio gostou da saia que usou. Continuou usando-a no outro dia. Não revelando por qual motivo realizava o intento. Com isso, outra coisa também não mudou. Danilo pela segunda vez foi ativo na relação. Algo estava mudando e ambos pareciam estar gostando disso. Danilo experimentava o prazer de “comer” alguém. De fato havia comprovado o que pensava. Ser ativo é muito mais tranqüilo que ser passivo. Sem demasiadas dores e desconfortos, o gozo era inevitável. Entretanto, estavam sentindo falta dos velhos tempos. Por mais que fosse gostoso, Danilo sentia falta do outro lado. Era o que lhe deixava confortável. O que realmente lhe dava prazer. Júlio também não estava gostando da mudança e logo resolveram voltar aos papéis iniciais.
A viagem tinha sido perfeita. Depois da segunda discussão tinham se conhecido por completo. Os dois estavam no auge da relação. O momento de maior amor. Já tinham se conhecido o suficiente. Agora possuíam motivos suficientes para se dedicarem cada vez mais ao relacionamento.
No ônibus de volta para casa, estavam muito felizes um ao lado do outro. Planos de casar e morar juntos eram freqüentes. Era o que faltava. Ao som de “Um certo alguém” de Lulu Santos iniciaram uma sessão de declarações de amor, os deixando muito emocionados.
“Um certo alguém” – Lulu SantosQuis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção
E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção
Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição
E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar
Me dê a mão
Vem ser a minha estrela
Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver
Que eu viver, uoh, uoh
E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar
- Eu adoro esta música, Júlio. Já prestou atenção na letra? É a nossa música!
- Sim. Tem tudo a ver. Deixa eu falar uma coisa no seu ouvido?
- Deixo.
- Só você me faz feliz! Desde a primeira vez que te vi vindo ao meu encontro. O seu jeito de andar, seus cabelos balançando no ombro, tudo isso me deixou encantado.
- Ai, Júlio. Assim eu vou chorar. Você é muito importante para mim! Eu nunca amei ninguém como eu amo você. Com você eu aprendi que o amor realmente existe. Você me ensinou tantas coisas.
- Eu nunca amei ninguém em tão pouco tempo. Você faz a minha vida ter mais sentido. Você me entende. Me completa. Me compreende. Se eu perder você acho que não sei se conseguiria viver. (chorando)
- Eu quero você para sempre! (chorando) Você sempre estará comigo. Não importa o que aconteça. Eu nunca vou esquecer o que você representou na minha vida. Todos os nossos momentos estarão guardados no meu coração. Uma parte dele já é todo seu!
- Eu te amo!
- Eu também te amo muito! Chegaram em suas casas com a certeza de que viveriam juntos até a morte. Todos os planos para o futuro seriam concretizados. Era questão de tempo. Todavia, como nada poderia ser perfeito, alguns problemas começaram a surgir na vida do casal. Cada vez mais encontravam dificuldades para se verem. Júlio era muito atarefado. Tinha o seu tempo semanal todo tomado com a escola, o trabalho e as aulas particulares. Danilo também possuía pouco tempo, mas sempre dava um jeito de burlar estas questões. Danilo era mais flexível. Para ele, Júlio era mais importante que tudo isso. Júlio, por sua vez, era mais realista. Suas obrigações eram tão importantes quanto o namoro e isso gerava grandes conflitos.
A família de Júlio também o estava pressionando muito. A notícia de que iria morar junto com Danilo não foi muito bem recebida. Este que já não era tão querido teve de não mais visitá-los.
Uma viagem de intercâmbio para os Estados Unidos que seria realizada por Júlio causou mais uma confusão na vida do casal. Danilo estava no último ano da faculdade, não poderia largar tudo para ir com ele. Júlio queria Danilo junto com ele, mas aquilo não seria possível. A viagem estragaria planos dos dois. Seria um risco desnecessário. Para Danilo, deveriam ficar onde moravam mesmo. Poderiam realizar todos os anseios e esta viagem poderia ser pensada depois.
Com todas estas preocupações, o inevitável aconteceu. Os dois estavam se afastando. Nada mais dramático. Aquele amor que se mostrava tremendamente sólido parecia estar se desfazendo. Danilo estava se desesperando. Não deixara de amar Júlio. Era só questão de tentar uma nova aproximação. Deveriam se ver mais. Danilo estava disposto a tudo para não acabar com esta relação tão pura e verdadeira.
10 Dia 12 de junho estava se aproximando. O primeiro dia dos namorados juntos seria muito importante. Já estavam cheios de planos. Pensavam em tantas coisas que nem sabiam o que iriam fazer. Danilo estava empolgado. Preparava um presente especial. Tudo deveria ser feito para resgatar a intimidade que tinham antes. Ele ficou dias preparando o tal presente. Uma carta de amor e um rolo com mais de mil “eu te amo” escritos a mão. Dedicou-se a isso como uma fã enlouquecida por seu artista preferido. Tinha a certeza que Júlio iria gostar.
No tão esperado dia combinaram inicialmente na casa de Júlio. Não havia ninguém em casa. Poderiam conversar, namorar e decidir o que iriam fazer a noite. Júlio ficou encantado com o presente. Nunca havia recebido tamanha prova de amor em sua vida. Leu a carta com os olhos cheios de lágrimas. Uma esperança havia surgido. Não deixavam de se amar. Realmente, só deveriam repensar a relação. Dar as devidas importâncias necessárias para que tudo desse certo. Entretanto, Júlio estava um tanto estranho. Danilo não sabia explicar muito bem o que havia percebido. Mas, algo não estava certo. Alguma coisa incomodava Júlio.
Combinaram de sair à noite para um jantar especial e foram se encaminhando para o ponto de ônibus. Danilo iria para casa se arrumar para o encontro. No ponto mesmo, trocaram algumas palavras bonitas e logo Danilo embarcou.
- Você está bem Júlio? Estou sentindo você um tanto estranho. Aconteceu alguma coisa. Você quer conversar?
- Não querido. Eu estou bem! Eu adorei o seu presente. Nunca pensei em receber tamanha prova de amor. Sem você minha vida não tem o mesmo sentido!
- Ah, eu te amo! Não quero que nada estrague o que sentimos um pelo outro. Você é tudo para mim!
- Olha amor! Seu ônibus está vindo. Vai lá ficar bem bonito para a nossa noite de eterno namorados. Te amo!
- Eu também! Beijos! Danilo entrou no ônibus e só dando tempo de pagar a passagem e se dirigir ao banco, o que possibilitou ao motorista avançar alguns metros, ele ouve um grande barulho misturado com um som forte de uma freada de carro. Imediatamente, um aperto invade o seu coração. Uma dor implacável. Uma angústia fora do comum. Pede para o ônibus parar e desce. Encaminha-se para uma multidão que se forma em volta do ponto onde acabara de estar. Neste momento, não consegue pensar em nada. Está concentrado em chegar onde as pessoas estão e ver o que aconteceu. Ouve-se muita gente falando. Muito disse-me-disse. Mas, nada de real concreto. Ao chegar no ponto pergunta o que houve. Alguém responde que um carro vindo em alta velocidade perdeu a direção e atropelou algumas pessoas que estavam no ponto. A angústia aumenta cada vez mais. O coração pede para não seguir em frente. Entretanto, Danilo precisava prosseguir. Abrindo espaço na multidão, finalmente consegue chegar onde queria. Ao todo, cinco pessoas foram atingidas. Algumas estavam feridas, porém uma em especial chamava a atenção. Um jovem aparentando 18 anos que estava atirado ao chão. Em volta de sua cabeça uma poça enorme de sangue. Este foi o primeiro a ser atingido.
Danilo reconheceu Júlio na primeira olhada. Não acreditava no que via. Em minutos atrás, ele estava ali, vivo, conversando. E agora estava morto. Continuava com a mente vazia. Em nada pensava. Seus olhos não paravam de olhar para o corpo de Júlio. Era inevitável conter as lágrimas. Elas desciam em seu rosto a cada piscada de olhos. E Danilo continuava no mesmo lugar. Estático, imóvel, impenetrante. Sua expressão no rosto não mudava. Estava a ponto de enfartar. Só seu coração respondia. Batidas fracas diziam que algo estava errado. Uma dor como jamais havia sentido o invade. O coração responde aos sentidos. O sofrimento o acomete.
Danilo a passos que poderiam ser contados a olho nu se dirige ao corpo de Júlio. A cada movimentação das pernas, a cada passo uma lembrança lhe vinha a cabeça e uma lágrima escapava dos olhos. Chega ainda estático ao corpo de Júlio. Em um instante, se ajoelha e deitando a cabeça sobre sua barriga desaba em choro. As lembranças não paravam em sua mente. Para os outros, Júlio estava morto, porém para Danilo ele estava vivo.
- Ah, meu amor! O que fizeram com você? Você era tudo o que eu tinha de melhor nesta vida. Você não merecia isso. Eu estou aqui com você... Não me deixa!“Quando eu vi você vindo em minha direção, com seu jeito de andar, com seus cabelos nos ombros, eu me encantei. Estava apaixonado...”- Eu sei que a gente estava meio distante, mas eu nunca deixei de amar você. Me perdoa se eu muitas vezes não soube ser do jeito que você gostaria. Eu não estou agüentando ver você assim meu amor. Pára de brincadeira. Por favor! Por favor! Eu não estou agüentando!“Eu gostei foi de beijar você. A sua boca gostosa. Fiquei com o pescoço doendo de tanto que fiquei na mesma posição”- Como a vida pôde ser tão injusta! Se eu tivesse ficado mais um minuto aqui estaria junto de você, meu amor! Eu queria tanto ter ficado com você! O que vai ser de mim? “Com você aprendi o que é amar. Você é a maior realização da minha vida. A minha maior vontade é dormir e acordar ao seu lado todos os dias.”- Você lembra amor? Lembra dos nossos planos? Da nossa casa, dos nossos filhos, da nossa vida a dois? A gente planejou tanto isso... Não é justo você partir agora. Não faça isso comigo. Eu quero morrer com você!“Ai Danilo! Você é louco mesmo de vir aqui para casa mesmo estando assim doente. Você está com febre. Deixa eu pegar um pano gelado para você.”- Eu não me importava com nada. Não queria saber de faculdade, de trabalho, de nada! Eu só queria ter você ao meu lado. Estava disposto a tudo para ter você sempre juntinho de mim. E agora, Júlio? Você não pode me abandonar! Não agora...“Caramba. A gente fez uma bagunça enorme no quarto. Consumimos tudo o que tinha no frigobar. A conta ficou caríssima. A gente é maluco mesmo.”- Ai, ai... Sabe amor! A dor está muito grande. Eu nem sei como estou me agüentando aqui. Vendo você ai neste chão sujo. Com a cabeça toda suja de sangue. Você não era para estar aqui! Lembra que a gente ia sair hoje? Então, querido, vai colocar sua roupa. Vai se arrumar. Eu também comprei uma roupa bem bonita especialmente para você!“Eu estou me sentindo culpado. Sentindo como se todo mundo tivesse me julgando. Até meus amigos estão contra mim. Estou me sentindo sufocado.”“Eu nunca amei ninguém em tão pouco tempo. Você faz a minha vida ter mais sentido. Você me entende. Me completa. Me compreende. Se eu perder você acho que não sei se conseguiria viver.”“Desculpa! Eu nunca ia esquecer de você. Você é tudo para mim! Eu te amo!”“Eu sempre procurei alguém que entendesse o que diz o meu coração, hoje encontrei uma pessoa que não apenas sabe o que diz o meu coração, mas que o cuida, o mima e o alegra todos os dias.”- A minha cabeça está a mil, amor! Todos os nossos bons momentos estão passando aqui agora. Você lembra da nossa música? Lembra? Responde? Ela está agora passando pela minha cabeça. E também aquele dia do ônibus que você me disse coisas tão bonitas. Ai meu deus! Por que eu preciso passar por isso? Por que esta dor é tão grande? Traz ele de volta! Amor! Canta comigo? Canta...“E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar...” Durante alguns minutos, Danilo esteve a chorar debruçado em Júlio enquanto nada mais importava. Só o seu amado e as lembranças da grande paixão vivida. O tão aclamado presente de “dias dos namorados” estava a alguns centímetros de Júlio. Danilo não sabia o porquê ele tinha o levado para o ponto. Não havia reparado. Porém, ele estava lá. Ainda bem enroladinho com um laço de fita cor de ouro e manchado de sangue. Era a prova viva do amor. Júlio morreu junto do que jamais gostaria de ter esquecido. Toda a relação vivida pelos dois.
Danilo não tinha perdido ninguém. Para ele tudo continuaria como antes. Júlio sempre estaria com ele. Em vida ou em morte ficariam juntos para sempre. Isto era uma promessa de ambos. Nunca se separarem. Danilo em um gesto tentando cumprir esta promessa deita de frente para Júlio. Com o presente entre eles, o abraça em meio a sangue e destroços, e ali permanece até a chegada da ambulância.
Post Scriptum: Carta escrita por Danilo para ser enterrada junto ao corpo de Júlio.
Júlio.
Tenho tantas coisas para falar, mas não sei como começar. Você me conhece e sabe o quanto eu te amo. A minha vida está boa e ruim ao mesmo tempo. Boa porque sei que tenho sonhos, uma família, saúde e boa condição financeira. Ruim porque só com você é que tudo isso poderia fazer mais sentido. Todos os dias, antes de dormir, lembro dos bons momentos que passamos juntos. Toda vez que choro também antes de dormir (sempre antes de dormir!), me lembro de todas as coisas boas que fizemos juntos. De todas as brincadeiras, de todas as aventuras, de todos os perigos... Não choro de tristeza porque sei que você também me ama e está sempre comigo. Também não choro de alegria. Choro por ter saudade. A saudade dói muito. Sinto um vazio no meu peito tão grande que às vezes só adormecendo é que posso preenchê-lo com sonhos e esperanças. A vida é tão curta e imprevisível que sempre tive medo de perder você sem ao menos dizer ou você ter a certeza que TE AMO MUITO!. E disso eu não tenho dúvidas porque eu nunca tive este sentimento por ninguém e sei que é muito forte e presente. O que sinto por você é muito bom, é puro, é verdadeiro e não tem maldade. Você pode estar longe de mim, mas mesmo assim continuo te amando. Aliás, amando muito.
Eu quero e desejo todos os dias que a vida nos uma de novo porque você me fez muito feliz e eu me sentia muito bem com você. Tenho saudades do teu abraço, da sua boca, do seu beijo e do seu corpo encostado ao meu. Com você eu me sentia protegido, me sentia livre, me sentia como o vento que não tem barreiras a ultrapassar. Tenho saudades dos nossos momentos íntimos, de estar com você, de dormir junto com você, de sonhar com você. Tenho saudades também de chorar nos seus braços depois de você fazer declarações de amor para mim, pois sabia que te amava e que isso era recíproco. De tudo, o que tenho mais saudades era da sua capacidade de fazer com que eu me tornasse uma pessoa cada vez melhor a cada dia. Peço desculpas por tudo de errado que possa ter feito, mas saiba que sempre te amei e que minhas atitudes incompreensíveis nem eu entendia, pois estavam repletas de um sentimento que naquele momento era novo para mim – o AMOR!!
Danilo.Letícia Vieira.