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Meu jeito de ser!!!

Meu jeito de ser!!!
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Dor...

Dor é querer e só poder imaginar um abraço,
Um abraço de mãos imaginárias.
Dor é estar junto e separado ao mesmo tempo,
Quando se quer, mas a vida não deixa...

Dor é estar sozinho,
Quando a memória é sua companhia.
Dor é beijar o próprio corpo,
Uma tentativa de beijar o outro.

Dor é vê os outros com o mesmo rosto,
Olhos de quem só vê a pessoa amada.
Dor é quando queremos fugir do mundo,
Ilusão de que longe estaríamos salvos.

Dor é quando só podemos sentir saudade,
Quando o sentir não se torna realidade.
Dor é amar e não poder dizer “eu te amo...”

Dor é sofrer,
E sofrer é amar...

Letícia Vieira.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um amor de "Internet"

Era um dia como outro qualquer. Nada de extraordinário havia acontecido desde então. Entre o silêncio da casa vazia e os cochilos no sofá, eis que uma surpresa estava a caminho. Ainda sem saber o que iria acontecer, no curto tempo que lhe restava, se preparou para o tão sonhado encontro. Queria estar bem apresentável. Seu coração parecia mais acelerado, sua respiração mais ofegante e um intenso nervosismo lhe trouxe uma grande inquietação. Estava apreensiva, envergonhada e preocupada. Não sabia o que falar e o que iria fazer quando o visse. Só tinha uma certeza: encontraria o homem que tanto amava!

Já podia vê-lo a certa distância. Estava lá em pé, parado e a minha espera. Fui me aproximando e logo percebi sua enorme timidez. Disse umas palavras sem sentido numa tentativa de não demonstrar minha fragilidade. Ele soltou um leve sorriso e nos abraçamos. Naquele momento senti um grande alívio. Uma sensação de paz tomou conta de mim. Nos abraçamos mais algumas vezes e em meio nossa falta de jeito, o primeiro beijo aconteceu. O movimento dos lábios e o encontro dos corpos os fizeram esquecer que um mundo lá fora existia. O desejo era que o tempo parasse e aquele momento de intensa excitação não tivesse fim. Melhor ainda, desejavam um mundo só deles onde pudessem usufruir de todo o amor que sentiam.

Sentados um de frente para o outro numa posição igual de namorados ficaram conversando por um tempo. Seus olhos se cruzavam e ele timidamente elogiava a beleza dela. Os dois estavam encantados. Um havia cativado o outro. E, a partir daquele momento, um necessitava do outro. Seria muito difícil viver separados. E ambos não poderiam mentir, estavam apaixonados. Amavam-se e isso era desde quando se conheceram. Parecia que foram feitos um para o outro.

Aos poucos, seus beijos se intensificaram e o desejo do sexo se tornou visível. Abraçados, ele segurando na cintura dela, foram a pequenos passos em direção a cama que os esperava. Com movimentos delicados tiravam suas peças de roupa enquanto descobriam onde cada um sentia prazer. As mãos dele exploravam todo o corpo dela e seus lábios beijavam os seios. O jeito como ele os beijava proporcionava a ela uma sensação enorme de prazer. Por sua vez, os lábios dela percorreram toda a extensão do corpo dele. Pela expressão do rosto percebia-se nele uma enorme excitação. Como homem e mulher se tornaram um só. E, finalmente, estavam felizes.

Deitada em seu ombro como se quisesse descansar, ela tornou aquele cenário ainda com cheiro de sexo, um tanto romântico. Conversaram e logo se deram conta que as obrigações os chamavam. Aliás, que o mundo gritava por seus nomes. Entretanto, o que menos queriam era a separação. Como um casal desejavam dormir e acordar juntos todos os dias de suas vidas. Após muitas hesitações, ele resolve partir. A despedida é difícil, porém necessária. Abraçados, novamente como namorados, eles se encaminham para o local da partida. Depois de um longo beijo, os dois se separam. Ele, mesmo caminhando, olha para trás duas vezes e a encara no fundo dos olhos como quem quer dizer “eu te amo”. Ela não poderia adivinhar, mas aquele seria o primeiro e o último encontro. Se soubesse poderia ter se despedido melhor...


Letícia Vieira.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

E no caminho, um menino...

E mais uma noite emana no céu,
Mais uma vez estou caminhando a luz da lua,
Os objetivos são os mesmos, mas eu nunca canso.
Meus olhos estão sempre sedentos de esperança.

Sei o que gostaria de encontrar,
Não sei exatamente o que procuro.
Procuro algo que está em meus pensamentos,
Uma imagem ou mesmo um alguém especial.

Um alguém representado na figura de um menino,
Não nos conhecemos, mas eu o conheço perfeitamente.
Costumo vê-lo todas as noites,
Ele pode estar em qualquer lugar e eu posso escolher.

Caminhando me deparo com aquela imagem,
É um menino magro, alto e com um olhar de profunda timidez,
Temo ser a imagem que eu gostaria de encontrar,
Nossos olhares se cruzam, mas não nosso caminho.

Ele continua em frente, avante e sem reações,
Eu sigo o seu olhar e paro por um instante,
Observo ele passar e sumir do alcance dos meus olhos,
Não era o menino procurado e continuo a caminhar...

Me questiono se o encontrei ou não,
Mas, não poderei saber, afinal ele não me conhece,
Sei que ele existe e continuarei procurando,
A imagem é nítida como um retrato.

A estrada é longa e parece não ter fim,
Na minha mente ainda a mesma imagem,
Em meus pensamentos, ela se transforma em sentimento,
No sentimento maravilhoso que se chama amor.

Sinceramente, não tenho certeza se o encontrarei um dia,
Nem mesmo sei se o que procuro existe,
É a representação do mais sincero sentimento,
Imagem que não quero jamais esquecer.

E continuo a caminhar...

E continuo a procurar...


Letícia Vieira.

O "adeus", a "espera" e a "partida"

As lembranças estão sempre presentes,
Impossível esquecer o que vivemos,
Lembro de tudo sempre com muito carinho,
Tenho certeza que em muitos momentos eu estive feliz.

Por vezes, tento entender o porquê de tanto sentimento,
Não chego a nenhuma conclusão,
O que vem do coração não se explica,
Podemos apenas aceitar ou não aceitar, viver ou não viver.

No momento, minha escolha é fugir,
Estou partindo e desta vez sem avisar,
Sei que fugir é covardia (o “dever” é enfrentar),
Mas, não tenho forças e estou cansada.

Já estive doente de amor,
Já sofri e chorei por causa desse amor,
Já quis “deixar o mundo” e viver esse amor,
Contudo, eu estava sozinha e, assim, quero continuar.

Desta vez, não pretendo voltar.
Estou fugindo porque não quero mais sofrer,
Não posso esquecer do quanto eu te amo,
Mesmo assim, quero ir embora e me afastar disso tudo.

Tento acreditar que fiz a melhor escolha,
Também sei que posso me enganar,
É um risco e estou ciente das conseqüências,
Não tenho mais nada a perder.

Todo esse tempo, eu suportei mais do que poderia.
Pode parecer besteira, mas nunca senti algo tão forte,
Uma vontade imensa de amar e ser amada,
Um desejo incontrolável de estar contigo e ser feliz.

Por enquanto, tudo isso é uma grande ilusão.
Não tenho mágoas e nem sinto decepção,
O que sinto é somente amor, amor e mais amor...

Neste momento, não posso fazer muita coisa...
Senão me desculpar e agradecer pelos bons momentos,
Posso ainda esperar que o destino mude tudo isso,
Entretanto, você também pode mudar.

Independente do que acontecer,
Nós estaremos sempre juntos (impossível esquecer),
E de qualquer maneira, eu estarei aqui, sempre aqui.
Vivendo o tempo que me resta e esperando...


Letícia Vieira.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um sonho, um desabafo e mais uma vez o amor...

Não sei o que escrever e nem o que dizer,
Sinto uma vontade enorme de não estar em lugar nenhum,
Sinto saudade, amor e solidão,
Em um piscar de olhos, as lágrimas molham meus escritos.

Não sei os motivos que me levaram a estar assim,
Sei que estou sem rumo, sem direção,
Queria que tudo fosse um lindo sonho,
Um sonho de amor e felicidade...

Sinto saudade das noites mal dormidas,
Dos gestos de amor e das palavras sinceras.
Saudades de me sentir em paz, de me sentir amada,
De ser feliz e de dizer 'eu te amo'.

Estar longe um do outro seria impossível,
Estamos sempre juntos, em vida e em pensamento.
Meu coração é seu, somente seu,
Não poderei amar ninguém como eu amo você.

Sinto saudades do 'não-feito', do 'não-dito' e do 'não-vivido',
Sinto saudades de seu cheiro, do seu toque,
Do seu jeito menino e da sua maneira de amar.

Gosto das músicas que me fazem lembrar de ti,
As ouço sempre porque sei que assim não poderei te esquecer.
Meus pensamentos se perdem em você.
Durmo e acordo na companhia de seus abraços.

Com você eu não poderia sentir falta de nada,
Meu coração esbanjaria alegria,
Poderia ser livre e fazer o que quisesse,
Não me sentiria tão sozinha, estaria completa.

Queria que tudo isso fosse verdade,
Que eu pudesse realmente te dar todo o meu amor,
Que eu pudesse me entregar por completo e,
Que eu pudesse sentir verdadeiramente o que é te amar.

Queria que a minha vida fosse sua,
Que o futuro fosse nosso.
Queria mesmo tirar toda essa dor de dentro de mim,
Queria felicidade e não sofrimento.

Tudo o que é indesejável está dentro de mim:
Tristeza, solidão, vazio e dor.
Queria estar sorrindo e não chorando.
Não queria mais viver de incertezas.


Letícia Vieira.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O último desabafo: uma narrativa do invisível



Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2010.

Hoje acordei sem ter dormido. A noite passou, o sol chegou e eu não preguei os olhos. Devo estar com olheiras profundas. Há dias que não durmo. Há dias que não tenho sonhos e nem pesadelos. Os tenho acordada mesmo. Todos estão na minha cabeça.

Tenho estado assim devido aos meus freqüentes conflitos familiares. É difícil dizer isso, mas meus pais fazem questão de me mostrar todos os dias que existe um lugar reservado para mim. Não é o da morte, quem dera que fosse, é o lixo mesmo. Fazem questão de mostrar a “merda” que eu sou. Eles me amam, disso eu tenho certeza. Do jeito deles, mas amam. Eu também os amo e os quero muito bem. Só queria que eles me vissem do jeito que eu realmente sou. Só queria ter valor. Só queria ser orgulho para eles. Mas, enfim, sinto que isso não vai acontecer! O que me resta é agir. Deixo meu irmão que faz com maestria o papel de “orgulho” do papai.

Está insustentável ficar aqui. Entre olhares indecisos e atitudes bem pensadas eu me sinto como uma mosca. Aquela que chega fazendo barulho, que é invasora, que está ali só para incomodar. Aquela que não é bem-vinda. Estava pensando em sumir. E quando eu digo sumir é ir para um lugar que nem eu mesma conheça. Um lugar onde eles não terão notícias de mim. Quem sabe assim eles sintam a minha falta. Quem sabe assim eles possam repensar e me pedir para voltar. Confesso que voltaria sem pensar. Voltaria para o meu lar. Voltaria para ter a minha família. Para ter amor e proteção. Para realmente saber o que é ter um pai e uma mãe. Sentir-me filha e ter orgulho de viver!

Além de sumir, teria uma outra opção. Esta não tem como voltar, nem se isso fosse o desejo mais profundo de meus pais. Na verdade, eu tinha escolhido esta opção. Mas como sou fraca, o máximo que consegui foram terríveis dores no estômago e grandes marcas nos meus dois pulsos. Eu sou covarde. Não suportaria saber que pessoas sofreriam com a minha ausência. O meu amor é maior que tudo isso. Podem me pisar que eu vou continuar amando. O meu coração é bom!

Se ao menos eu tivesse um companheiro, acho que as coisas seriam mais fáceis. Ao menos por uns minutos iria esquecer essas coisas e teria um pouco de felicidade. Mas, ultimamente não tenho nem sapo e menos ainda príncipe. Só aproveitadores, predadores e coisas parecidas. Posso dizer que amo alguém. Aliás, amo muito. Amo de uma forma única. Amo com nunca amei ninguém. Não me perguntem o porquê, só sei que amo. Mas tudo isso porque sou uma boba para não dizer idiota. Quem eu amo não sabe o que é amar. Não sabe o que significa este sentimento. Não tem a sensibilidade necessária para isso. Também não tem coragem. Sem ela não se vai a lugar nenhum. E esta coragem precisa estar presente nos dois. Amar é um sendo dois. Amor é união. É saber o que diz um coração. É só um caminho. É só um destino...

Estou cheia de amores platônicos. Estou cansada de sofrer. Cansada de abrir meu coração. Cansada de me entregar. Estou cansada de ser criança. Eu quero ser feliz. Estou cansada de só receber não. Eu quero sim. Quero a verdade. Eu quero viver!

Estas são as últimas palavras. São os últimos suspiros. Sou o que não existe. Falo e ninguém me ouve. Escrevo e ninguém ler. Apareço e ninguém me vê. Já acostumei com o invisível. Já me acostumei com ninguém. É assim que deve ser. O coração sem alma no silencio dos sentimentos. Devo deixar o sangue circular. Os desejos serão dissolvidos. O cadeado se fechará e a chave se perderá...

Eu sou as pedras. Eu sou a terra. Eu sou a água. Eu sou o gelo. Não quero mais. Não quero estar concreto e nem ser amor. Eu sou o vento. Eu sou o raio e o trovão. Eu sou o barulho. Eu sou o suspiro. Eu sou o sentimento. Assim, ficarei bem. Quero sentir o silêncio dentro de mim. O “nada” e eu...

Carla Valéria da Silva.





Por Letícia Vieira.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Da janela, o relato de uma vida...

A rotina é realmente é um mal necessário. Todos de certa forma possuem uma. Eu odeio! Saio de casa todos os dias no mesmo horário para pegar a condução do mesmo horário e chegar no trabalho também no mesmo horário de costume. Quando acordo de “ovo virado” como dizia minha vovozinha, faço tudo diferente. Acordo mais tarde, pego a condução de outro horário e chego no trabalho completamente fora do horário de costume. Fez bem quebrar a rotina. Que me chefe nem saiba disso!

Trabalhar até que pode ser bom, desde que não seja para os outros. Melhor coisa é trabalhar para si mesmo. Meu chefe é até legal, mas preferiria mesmo ter o meu próprio negócio, ter a minha vida, a minha rotina, a minha independência...

Voltando ao que interessa... Saio de casa todos os dias para cumprir meu dever como “cidadã” (O Brasil é o país do futuro... como já dizia o falecido Renato Russo). Deixando o deboche de lado por enquanto, sempre carrego meu crachá, meu celular, minha agenda, meu lanche e meu lindo MP4, afinal sem música eu não sou ninguém. Contraditoriamente, sou uma pessoa comum. Faço as mesmas coisas que todos fazem. Como todo mundo, eu também tenho problemas, muitos problemas. Nem sei como ainda não enlouqueci. Às vezes eu acho que isso já aconteceu, mas “abafa o caso” que ainda não me avisaram.

Sou observadora ao extremo. Quase não falo nada, exceto quando ficam me enchendo o saco, mas tanto o saco que sou obrigada a falar, ou melhor xingar: porraaaa, cala a boca!!! É gente, eu sou ignorante. As pessoas cansam de me dizer isso. Dizem que eu sou sem paciência, que não sei dialogar, dizem que eu não gosto de ser contrariada. Mas que coisa estranha! Eu me formei professora e amo lecionar, como não tenho paciência? Melhor deixar isso para lá, não vale a pena, daqui a pouco vocês também vão dizer que eu sou ignorante... Como estava dizendo, sou muito observadora. Vejo coisas que ninguém é capaz de ver (sabe aquele papo de que certas coisas só os inteligentes podem ver, é por aí... Aliás, “Chaves” também é cultura!) Observo os mínimos detalhes e lembro de coisas que ninguém é capaz de lembrar. Vejo a imperfeição, vejo a beleza, vejo a mentira e a falsidade. Vejo um retrato de mim mesma. Um retrato do ser humano.

Muitas observações feitas por mim são guardadas a sete chaves, sou um baú de surpresas, quando você menos esperar posso acabar com a sua vida. Enche o meu saco só para você ver uma coisa! Tenho um pouco de maldade dentro de mim, mas nem sei por qual motivo este lado não se manifesta. Não tenho inimigos e nem odeio ninguém. Já me fizeram mal, isso eu posso dizer que já fizeram, mas não fiz o mesmo, pelo contrário dei o desprezo como resposta. Em alguns casos dei até amor... Oh, meu deus, gente assim morre rapidinho! Sou uma iniciante da vida, uma criança num corpo de adulto. Vivo em um espaço, porém imagino estar em outro. A imaginação é a minha vida.

Dizem que sem imaginação não existe o poeta. No meu caso sem imaginação não existe a vida ou ainda, nem eu existiria. Certamente, não estaria mais aqui sem imaginação. Lá da janelinha do meu rotineiro ônibus do meio-dia vejo o meu mundo lá fora. Enxergo a vida a minha maneira. Ali eu posso ser tudo. Posso ser a mocinha, a vilã, a princesa, a fada e a rainha. Desfruto de todos os momentos, de todos os sentimentos, de todas as situações que só acontecem no meu mundo, na minha vida. Posso ser casada, solteira, divorciada, amar quantas pessoas eu quiser ou também brigar com meu marido. Na minha vida acontece tudo e exatamente da forma como eu gostaria. Sou uma poetiza nata.

O amor é o que há de mais aflorado em mim. Amo incondicionalmente. Nem sei se as pessoas sabem o que é isso. Gosto de amar (existe gente que não gosta, mas prefiro crer que existe gente que nunca amou de verdade). Mas também vejo que gosto de sofrer por amar. Sempre quem se fode sou eu! Todo mundo “sai bem na fita”, menos eu. Já sei, já sei, o problema está comigo. Concordo. Está mesmo! E eu sei o porquê. Eu não posso amar ninguém que não seja do meu mundo. Que não sejam os meus príncipes, os meus reis, os meus anjos. São eles que eu tenho de amar e não um humano mortal. Assim nunca vai dar certo. Não sirvo para isso, já me conformei. Todos erram, mas no final quem sempre mais erra sou eu. Será isso mesmo ou será que eu sou idiota em dar confiança demais? Estou votando ultimamente na última opção. Diz a sabedoria popular que amar é um jogo, quem não sabe jogar dança. Não sei jogar e nem quero aprender. Não sou assim, sou do tipo que compartilha e não do tipo que tira o que é de outro.

Tem dias que me contento com a minha solidão. Reclamo, mas gosto de sofrer. A solidão é uma boa companhia. As coisas nunca saem do lugar, tudo parece ser bem estratégico para guiar seus pensamentos. O mesmo vaso, as mesmas almofadas, o mesmo sofá e assim por diante. A solidão pode estar em todas as coisas. No chão, na parede, na janela, num poste ou mesmo em um controle remoto, só basta você querer.

Não sou satisfeita com nada! Em mim vejo todos os defeitos. Não gosto de espelhos, não gosto da minha sombra e nem da minha forma de falar. Não sou satisfeita comigo mesma, não gosto da imagem que vejo. Como alguém assim pode amar outro semelhante? Impossível, é merda na certa! Dizem que parar amar alguém a gente precisa amar a si próprio. Acho legal isso! Se não nos amamos acabamos colocando a responsabilidade disso no outro. Vamos querer sempre atenção, carinho e afeto. Colocamos o outro como nosso escravo. Vamos ser exigentes demais porque achamos que o outro deve nos colocar como prioridade. Achamos que o mundo gira em torno do nosso sentimento. Na verdade, não estamos sentindo nada e sim, usando o outro para diminuir nossa própria carência. No final das contas, somos todos egoístas.

Eu estou sempre esperando e vejo que já me acostumei com isso. Eu nunca comando, estou sempre esperando, esperando. Sempre estou presente quando precisam de mim, mas quando eu preciso nunca acho ninguém. Já me acostumei. A solidão pode me ouvir também. Aliás, nestes momentos, ela é a única que me ouve. É quem me dá a mão e me consola. Eu gosto dela. Ela me convence quase todos os dias que é assim que tem de ser.

Após um dia de trabalho chato e cansativo, volto para casa no mesmo ônibus, no mesmo horário e por vezes, com o mesmo motorista. Da janela, vejo um mundo particular novamente, vejo meu mundo, meus sonhos, meus objetivos, minhas tristezas, minhas lamúrias e meus amores. Da janela posso fugir de uma realidade onde eu não existo e partir para uma na qual eu existo. Uma realidade disfarçada, criada e desejada por muitos. Sem ela eu não poderia viver já que só nela posso ser feliz...



Letícia Vieira.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Esta noite eu tive um sonho...

Sonhei que andava pelas ruas como um cão procurando um abrigo. Caminhava sem rumo, sem razão, sem destino... Não sabia quem eu era e nem o porquê de estar por ali. Ninguém estava comigo. A rua era comprida assim como um corredor de hospital, mas diferente por estar completamente deserta. Imaginava ver pessoas, ouvir vozes e sussurros, porém não havia nem sequer uma barata ou um rato para me fazer companhia. Estava em um estado de delírio profundo. Uma overdose de pensamentos me acometia e naquele momento estava no plano da loucura.


Uma menina jovem, bonita e que não via sentido na própria vida. Todos diziam que era uma criança prodígio. Tinha tudo para ter o melhor da vida. E, no entanto, não foi lhe dado nada. Somente o desprezo e o gosto amargo da rejeição. Mesmo assim, não desejava muito, na verdade, em virtude dos outros, o que queria era até muito pouco com relação ao que realmente merecia.


A rua por onde andava parecia parte da loucura de sua existência. Percorria um único caminho, sempre igual, nada mudava, até mesmo as vozes e sussurros eram iguais. Entretanto, o intocável tornou-se tocável. Uma brecha se abriu e algo diferente aconteceu. Seus olhos que somente enxergavam o chão puderam ver uma sombra. Um calor se aproximava, o frio da noite se tornava mais ameno. Seu corpo sentia o prazer do toque. Algo encostava em minhas mãos. Uma sensação que jamais havia sentido. Um conforto que se confundia com a paz dos céus. Era uma outra mão que trazia um novo sentido para a vida. Uma mão que se traduzia em um corpo. Um corpo masculinizado, um anjo, um protetor. Alguém que veio me resgatar. Tirar-me da fronteira com o submundo.


Suas mãos levantavam meu queixo. Era possível ver como o mundo poderia ser bonito. Um rosto lindo, um homem diferente de todos que já havia visto. Um homem que tinha nos olhos o brilho do amor, o maior dos sentimentos. Aquele que me daria o que eu mais precisava. Suas mãos percorriam lentamente meu rosto e cabelos. De olhos fechados me entregava àquele gesto. O sentimento da vida pairava no ar, bem perto de mim. A presença de um ser tão puro e de sentidos tão aflorados me trazia uma leveza inexplicável. Como se meu corpo fosse feito de vento. Tinha a sensação de estar voando e sendo carregada por meu anjo protetor. Anjo que me envolvia em suas asas e me fazia sentir protegida. Não mais estava vulnerável. Meu sonho demonstrava que com carinho e atenção eu era a pessoa mais feliz do mundo.


Não mais estava sozinha. Meu príncipe me abraçava como um pai e um irmão. Dava-me o amor que eu tanto almejara. Como uma criança que se contenta com um doce, naquele momento, eu não poderia estar mais feliz. O “doce” fazia eu me sentir a pessoa mais sortuda do mundo. Por uns instantes tinha o pouco que gostaria de ter. O pouco que bastava. O pouco que era mais que muito...


Meu anjo era namorado e amigo. A combinação “mais-que-perfeita”. Algo que só acontecia no plano dos sonhos. De mãos dadas andávamos lado a lado como se o mundo fosse só nosso. Meus olhos só enxergavam outros olhos. Eles brilhavam e me diziam que eu poderia ser amada. Cada sorriso expressado em meu rosto deixava meu príncipe mais feliz. Sua realização estava em me mostrar que o amor é possível.
Deitada em seu colo sentia o aconchego de suas mãos me fazendo carinho. Assim, recebendo a atenção que se dá a um filho querido, eu adormecia. Ao acordar, meu anjo ainda estava por me acariciar. Ele parecia incansável. Suas energias não terminavam. Gostava de abrir os olhos e dizer que lhe amava. Que sem ele eu não seria nada. Continuaria a vagar e vagar por ruas e vielas sem destino...


Meu protetor não era de muitas palavras. Somente soltava breves sorrisos e voltava a me confortar. Certa vez disse que eu tinha um olhar muito triste e distante. Disse também que poderia me dar tudo o que eu quisesse. O que fosse preciso para ver sempre meu sorriso, me ver sempre feliz. Eu respondia que o que eu mais queria era tê-lo para sempre. Não desejava mais nada. Ele replicava que isto era a única coisa que não poderia me dar e novamente insistia que poderia me dar tudo o que eu quisesse. Percebia que meu anjo tinha a inocência infantil e a falsa esperteza adulta. Nem ele poderia ser perfeito. No entanto, para mim nada era mais completo. Nada era mais lindo que amar e ser amada. Um sentimento que eu jamais havia sentido agora se tornara o mais importante. E isso graças a este anjo que cruzou o meu caminho. Um caminho escuro, deserto que por uns instantes se tornou iluminado e confortável. Um caminho que mostrava a superação, que a esperança não havia morrido e que de tudo ficou a lembrança de viver um grande amor.



Letícia Vieira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um pedaço daquilo que me move, fragmentos de Capital Inicial...


“Um dia tudo volta para o seu lugar. Um dia tudo vai ficar como deveria estar. Vai ficar como devia estar.”


“Ninguém está contente. Ninguém aqui é diferente. Ninguém culpado. Ninguém aqui é inocente.”


“Mas eu não posso fazer mal nem às moscas. Quanto mais arrancar a revista que ela lê enquanto eu falo. Enquanto eu falo.”


“Mas eu nunca aprendi a dizer não. Quanto mais deixar de amar a TV que ela vê enquanto eu falo. Enquanto eu falo.


“Ninguém nunca te disse. Como ser tão imperfeito. Você tem tão pouca chance. De alcançar o seu destino. É fácil fazer parte. De um mundo tão pequeno. Onde amigos invisíveis nunca ligam outra vez. Talvez até porque. Ninguém ligue para você.”


“Faz muito pouco tempo. Aprendi a aceitar. Quem é dono verdade. Não é dono de ninguém. Só não se esqueça que atrás dos venenos das palavras sobra só o desespero de ver tudo mudar. Talvez até porque ninguém mude por você.”


“O que você faz quando ninguém te vê fazendo? O que você pudesse fazer se ninguém pudesse te ver?”


“Ninguém para ligar e dizer onde eu estou. Ninguém para ir comigo aonde eu vou. Por outro lado, ninguém para abaixar o volume. Ninguém para reclamar dos pratos sujos. Ninguém para fingir que eu não amo.”


“Pra que sofrer se nada é pra sempre? Pra que correr, se nunca te vejo de frente?”


“Parei de pensar e comecei a sentir. Nada como um dia após dia. Uma noite, um mês. Os velhos olhos vermelhos voltaram, de vez.”


“Por que se preocupar por tão pouco? Por que chorar, se amanhã tudo muda de novo?”


“É sempre frio. É tão estranho. Podia ser perfeito, mas foi quebrado. Caindo no vazio. Do lado errado. Não há nada que eu possa fazer. A não ser sair sem destino cantando o novo hino dos descontentes: Eu sempre quero mais que ontem. Eu sempre quero mais que hoje. Eu sempre quero mais do que eu posso ter.”


“Mais do que palavras. Mas do que promessas. Mais do que o mundo pode me dar. Eu quero sempre mais que ontem. Eu quero sempre mais que hoje. Eu quero sempre mais do que eu posso ter.”


“Eu sigo aonde você for. Eu preciso de você para aliviar a minha dor. Eu já estive aqui e ouço a sua voz, me dizendo que há um oceano entre nós. “


“Te incomoda que eu fale assim? O que mais você quer mudar em mim? (...) Você me quer incondicionalmente? Ou me quer mais, um pouco diferente?”


“Falar de amor não é amar. Não é querer ninguém. Falar de amor não é amar ninguém.”


“Você é tudo pra mim. O princípio e o fim. Agora vem a verdade. Às vezes eu minto. Como um peixe nadando num mar de rosas e vinho tinto. Horas depois, enquanto me arrependo. Tentando voltar, querendo fugir. Comecei a chorar (...)”



Fonte: Músicas do CD “rosas e vinho tinto” (2001) de Capital Inicial. Composições de Dinho Ouro Preto, Alvin L., Kiko Zambianchi, Mingau, Yves Passarell, Pit Passarell.






Letícia Vieira.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Narcisismo e o avesso dos sentimentos...


Com você tudo é muito estranho,
Tudo nosso é pela metade,
As dúvidas são freqüentes,
As mágoas recorrentes.

Achamos que nos entendemos,
Somos diferentes em nossas semelhanças,
Não há empatia entre nós,
Somos sinceros egoístas.

O amor é nossa criação,
Amamos a nós mesmos,
Queremos o mundo inteiro,
Queremos um ao outro.

Estamos sozinhos no espaço,
O universo conspira contra nós,
Anos-luz nos separam,
Assim ficaremos até o fim.

Nunca sei o que esperar de você,
Teimo em acreditar que não posso esperar nada,
Você não é o que eu gostaria que fosse,
Príncipes encantados não existem, mas eu te amo!





O que sentimos um pelo outro não existe,
Amo-te em silêncio,
Você só existe em meus sonhos e pensamentos,
Estamos em lados opostos.

Inventamos nossos próprios erros,
Sempre precisamos um do outro,
Queremos atenção, carinho e afeto,
Idealizamos a pessoa perfeita.

O que nos define é a carência,
Procuramos no outro o que nos falta,
O outro é imperfeito,
Não sabemos e nosso mundo acaba.

O chão não é mais nosso alicerce,
Culpamos sempre um ao outro,
Nossos sentimentos são frequentemente abalados,
E sua “arma” é fugir.

Não merecemos um ao outro,
Estamos equivocados,
Vivemos em um eterno sonho,
Somos um, mas a realidade nos separa.






Letícia Vieira.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ilusão - alimento dos "abismos"


Sofro por sofrer,
Sofro sem mesmo saber o porquê,
Sofro por algo inexplicável,
Sofro por alguém que nem existe.

Iludo-me com a sua presença,
Iludo-me com a sua voz,
Iludo-me com sua beleza,
Com suas palavras e atitudes.

Penso em você o tempo todo,
Meu mundo é dependente,
Dependo da sua luz,
Do seu ar para viver.

Sou a invenção do amor,
Crio e (re)crio meus sentimentos a todo instante,
Vivo para amar o que não pode ser amado,
Gosto de estar no mundo da ilusão.

Um abismo nos separa,
Somos incrivelmente iguais e diferentes ao mesmo tempo,
Combinamos e não combinamos,
Nascemos e não nascemos um para o outro.





Eu te amo sem poder,
Eu te amo sem entender,
Eu te amo sem querer,
Um abismo nos separa.

Somos céu e inferno,
Somos Sol e Lua,
Somos “Deus” e “Diabo”
Somos amor e ódio.

A doença me invade,
Os sintomas são evasivos,
A dor é interminável,
A cura impossível.

Vivo na ilusão da sua companhia,
Vivo para saber que um dia...,
Estamos em lados opostos,
Vivo para enganar o abismo.

O afastamento é o que queremos,
O nosso mundo e nada mais,
Não há espaço para dois,
Só há um para sempre.

O que sinto é “sofrer”.





Letícia Vieira.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Os cadáveres sociáveis"




Sinto como se o mundo não fosse o meu chão,
Sinto que não faço parte de lugar nenhum,
Aqui estou não-estando,
Sou uma espectadora, uma observadora da roda gigante.

Estou fora de tudo,
Assisto de longe a roda girar,
Ela nunca pára, nunca...
Algo está sempre a acontecer.

Sou um ser inabitável,
Alguém que vê um mundo sem sentido,
Um mundo onde reina a hipocrisia e ignorância,
Um mundo de cadáveres sociáveis.





A minha sombra é parente da morte,
Os meus olhos são irmãos da insatisfação,
Os meus ouvidos são primos da indignação,
E minha mente é mãe da estupidez.

Como cadáveres que somos, tento viver...
Tento sobreviver em meio a predadores,
De cobras, lagartos, onças e baratas,
Tento defender-me de mim mesma.

Os cadáveres me perseguem,
Achava que eles não poderiam me ver,
Mas eles podem, eles podem...

Eu os observo,
Analiso seus comportamentos, suas atitudes,
Conheço-os perfeitamente.
Contudo também me conhecem, também me observam,
Querem me devorar...

Cadáveres sociáveis,
Cadáver, mortos-vivos,
Gigante, roda, roda-gigante,
Cadáveres e sociáveis somos todos.





Letícia Vieira.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Uma noite, o "encontro" e a escrita do destino.


Eu estava perto, bem perto...

Sentia teu cheiro, teu calor,
Seu rosto acariciava o meu,
Minha cabeça encostava-se à sua,
Pele a pele, nossas emoções afloravam-se.

Nossos olhos pediam um abraço,
Podia sentir o calor dos seus ombros,
Suas mãos encostavam-se à minha,
Você as beijava como um eterno apaixonado,
Um sorriso surgia em meu rosto.

Sentia a doce sensação do seu colo,
Como uma adolescente,
Eu fechava os olhos e esquecia de tudo o que existia ao redor,
Meu pensamento estava só em você.

Nossas mãos entrelaçavam-se e selavam a união,
A vontade, o desejo enfim realizados,
Entreolhavam-se todo o tempo,
O beijo era mais do que esperado,
O encontro dos lábios demonstrava todo o sabor de amantes.





Almas gêmeas são descobertas,
Não mais poderiam estar separados,
Dependiam, precisavam e necessitavam um do outro,
Como um casal deveriam ficar para todo o sempre,
Naquele momento, este era o sentido da vida.

O sexo não poderia ser mais perfeito,
A união de corpos selava a paixão,
Por alguns instantes estive nas nuvens e visitei a felicidade,
Você me proporcionou o maior dos prazeres,
Com os olhos fechados eu estive sonhando, sonhando...
Um mundo só nosso,
Com a alegria de estar com você,
E com a felicidade de te amar.

O cansaço os acomete e o sono os invade,
Agarrados um ao outro puderam relembrar a noite vivida,
A satisfação de estarem lado a lado,
A vontade era de não mais acordar.

O brilho dos olhos não negava,
Estavam encantados, estavam felizes,
Estavam apaixonados...





Letícia Vieira.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"Cocaína" e a overdose do esgotamento




É uma tortura sem tamanho,
A vontade é enorme,
Cada minuto, cada instante é uma eternidade,
Eu te quero agora, não posso mais esperar!

Você me encontrou e eu não vivo sem você,
Eu preciso, preciso demais...
Só você me traz a felicidade,
A sua companhia é a melhor coisa do mundo.

Estar com você é um alívio,
Uma paz que eu jamais experimentei,
Um desejo incontrolável me invade,
Quero você todos os dias!

As convulsões são comuns,
A overdose está a caminho,
Faço tudo para te você sempre comigo,
Ter a mesma importância que lhe dou...

Tento lutar, (re)lutar,
Mas meu corpo é mais forte que eu.
Meu coração fala, grita por seu nome.
Ele está contra mim!

Eu queria muito me afastar,
Queria não mais chegar perto de ti,
Não queria nem sua amizade,
Estive chateada, com raiva, sentida, magoada,
O efeito não foi do jeito que eu gostaria.

Sinto que você não mais me satisfaz,
Mas também estou delirando,
Gosto demais de você,
Esta crise vai me enlouquecer.

Eu preciso, eu preciso...

Já se passou muito tempo,
Cada dia é um ano que se passa,
O relógio parou de funcionar,
Eu não consigo parar de pensar em você!

Eu te quero, te quero...

Não queria que fosse desta maneira,
Mas creio que me afastar é o melhor caminho,
Não é justo para nenhum dos dois...
A saudade ainda vai permanecer.

Não há como esquecer...
A sensação,
O sabor,
A satisfação,
A alegria de estar com você!

Sinto que não vou resistir por muito tempo...



Letícia Vieira.
(Fonte da foto: leealine.blogspot.com)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Os "Deuses"/ A "despedida"/ Lithium e as visitas ao inferno...




A "despedida", a "angústia" e a invenção do amor.


A decisão já foi tomada,
Não há como se arrepender,
O não-dito está feito e,
O dito está desfeito.

Tanto faz se eu não vivo sem você,
Tanto faz se vou sentir saudades,
Tanto faz se me entreguei a você,
Tanto faz se um dia eu te amei.

Ninguém engana ninguém,
Nós próprios nos enganamos...

Tanto faz se você me trouxe de volta a vida,
Tanto faz se você não sai dos meus pensamentos,
Tanto faz se você é o que mais importa neste mundo,
Tanto faz se teu jeito me encanta.

Tanto faz se sou uma menina-criança-boba,
Tanto faz se fui sempre sincera (que idiota!),
Tanto faz se você é um menino-esperto,
Tanto faz se você é um bom ator.

Ninguém engana ninguém,
Nós próprios nos enganamos...

Tanto faz se eu inventei a felicidade,
Tanto faz se eu inventei o amor,
Tanto faz se eu me apaixonei por você,
Tanto faz se eu não quero mais te ver.

Tanto faz se me enganei por completo,
Tanto faz se não tenho importância para você,
Tanto faz se não te quero como amigo,
Tanto faz se me afastar é o melhor caminho.

Ninguém engana ninguém,
Nós próprios nos enganamos...

Tanto faz se estou mentindo,
Tanto faz se você estivesse ao meu lado,
Tanto faz se nada disso tem sentido,
Tanto faz se nosso amor não daria em nada.

Tanto faz se estou me despedindo,
Tanto faz se a angústia me acomete,
Tanto faz se o arrependimento me invade,
Tanto faz se me sinto culpada.

Ninguém engana ninguém,
Nós próprios nos enganamos...



A "Deusa", a "concepção" e o diabo como irmão.


A "Deusa" que deu a luz,
A "Deusa" que ama sua cria,
A "Deusa" que respeita o criador,
A "Deusa" que promove o amor.

A "Deusa" que mente,
A "Deusa" que come do fruto proibido,
A "Deusa" que mata em nome da paixão,
A "Deusa" que é submissa as ordens do "Rei".

A "Deusa" que tem o diabo como irmão,
A "Deusa" que pode amar e odiar,
A "Deusa" que não quer o mal,
A "Deusa" que não sabe o que diz.

A "Deusa" que transforma a água em vinho,
A "Deusa" que se prostitui,
A "Deusa" que não tem amor próprio,
A "Deusa" que não quer o mal.

A "Deusa" que é capaz de amamentar a todos,
A "Deusa" que tem o veneno da humanidade,
A "Deusa" que inferniza as almas,
A "Deusa" que está em todos os lares...





Aquela que...


Aquela que me chama todas as noites,
Aquela que não sai dos meus pensamentos,
Aquela que está presente em todos os lugares,
Aquela que promove a tristeza.

Aquela que me adora,
Aquela que me invade,
Aquela que não quer ir embora,
Aquela que me afasta de todos.

Aquela que não me deixa dormir,
Aquela que está em todos os meus sonhos,
Aquela que acompanha minha imagem,
Aquela que é a minha sombra,
Aquela que disfarça minha luz.

Aquela que é prima da morte,
Aquela que me deixa sensível,
Aquela que é irmã das lágrimas,
Aquela que passeia no inferno,
Aquela que nos tira da realidade...



O "Rei", a "cruz" e o sacrifício do nascimento.


O "Rei" criador da Terra, do Céu e do Inferno,
O "Rei" provedor da vida,
O "Rei" ditador da animalidade,
O "Rei" invensível.

O "Rei" de todos os males,
O "Rei" que adora seus filhos,
O "Rei" da perfeição,
O "Rei" da paz e da ordem.

O "Rei" com seu trono no Céu,
O "Rei" da mentira,
O "Rei" de olhos na Terra,
O "Rei" dos sacrifícios,
O "Rei" das visitas ao Inferno,
O "Rei" dos verdadeiros amigos.

O "Rei" de poucos,
O "Rei" do amor,
O "Rei" da tristeza,
O "Rei" do esquecimento.

O "Rei" que é Pai de todos nós,
O "Rei" da ajuda,
O "Rei" do nascimento,
O "Rei" dono de todos os corpos.

O "Rei" dos filhos prodígios,
O "Rei" aclamado,
O "Rei" que tudo vê,
O "Rei" longe de mim...






Letícia Vieira.
(Fonte das fotos: cnfmpoesias.blogspot.com/pautaquepariu.zip.net/vidaslinha.blogspot.com)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A descoberta do amor - parte I



1


A vida de adulto por vezes é algo um tanto chata. Preocupações e mais preocupações nos invadem. Danilo sai do trabalho e vai para a faculdade. Estuda jornalismo no turno da noite em uma faculdade particular. Assim como todo jovem de classe média, precisa garantir o seu sustento. Gosta do que estuda, apesar de estar enjoado do curso universitário. Sonha em exercer a profissão e ser um grande jornalista.

Ao longo de seus 20 anos de idade teve alguns namorados, mas nunca soube o que é amar alguém de verdade. É um jovem muito tranqüilo, tímido, por vezes sério, outras vezes extrovertido, porém é uma pessoa muito reservada. Têm seus poucos e verdadeiros amigos. Nunca foi popular para ter muitos. Gosta de saber que com os poucos se pode contar.

Aprendeu e amadureceu muito depois que entrou na faculdade. O curso de jornalismo é bem amplo e se tem contato com inúmeros aspectos de nossa cultura. Danilo sempre gostou de estudar e costuma ler tudo o que lhe interessa. Vive fazendo pesquisas sobre variados assuntos e os domina com uma facilidade invejável. Apesar de tímido, se expressa e domina muito bem o português. Têm uma verdadeira admiração por determinas línguas. Neste ponto, é autodidata.

Recentemente, conheceu Júlio. Um jovem de 19 anos, estudante e que possui os mesmos objetivos de Danilo. Ainda não marcaram sequer um encontro. Todos os dias se falam pela internet e pelo telefone. Passam horas conversando sobre inúmeros assuntos. As orelhas chegam a doer de tanto que não desgrudam do telefone.





2


Ficaram se comunicando desta forma por mais ou menos um mês. Aos poucos foram se conhecendo. Descobriram que possuíam muito mais coisas em comum do que imaginavam. Já estavam pensando no encontro. Deveriam combinar quando e em qual lugar. Resolveram que iriam ao cinema. Marcariam no centro da cidade e depois do cinema até poderiam fazer outra coisa. Dia e hora marcada. Seria no dia 25 de janeiro às 16 horas da tarde. Júlio foi o primeiro a chegar. Danilo como de costume se atrasou um pouco. O encontro foi estranho. Os dois estavam tensos e mal conseguiram se cumprimentar. Um leve abraço foi tudo o que aconteceu. A vontade era de um abraço bem forte. Já estavam apaixonados.

Chegando ao cinema, compraram os lanches e seguiram para a entrada. Conversaram pouco. A intensidade era bem menor do que as longas conversas pela internet e pelo telefone. O filme era excelente, mas era evidente que ambos não estavam com vontade de assistir. Sentando um ao lado do outro, aos poucos suas mãos foram se juntando. Os primeiros carinhos acabariam de começar. Os dois estavam completamente sem jeito. Entreolhavam-se e em mente diziam o que almejavam para aquele momento. O beijo aconteceu por um gesto atrapalhado de Júlio. Pegando no rosto de Danilo suas bocas se encontraram e durante todo o filme estiveram na mesma posição em profundos beijos intensos. Aquele era o beijo inicial. Era o beijo que marcava o início da intimidade. No mesmo dia começaram a namorar. Na saída do cinema, em meio a olhares curiosos de quem presenciou uma sessão de beijos e carícias, ambos só pensavam em si mesmos.


- Gostou do filme, Júlio?
- Se eu tivesse visto, você viu?
- Mas é claro que não, neh! Eu vi sua boca encostando na minha...
- E você gostou?
- É claro que eu gostei! E muito! Meu pescoço está doendo de ficar parado na mesma posição...
- Você quer namorar comigo?
- Hum... Eu quero! (Dando um leve e rápido beijo em Júlio)
- Que bom, então estamos namorando!
- Vamos comprar chocolate?
- Sim. Depois vamos lá na minha faculdade. Eu teria aula hoje sabe, mas um tal de Júlio me obrigou a ir no cinema com ele.
- Ah... Obriguei mesmo! Vai dizer que você não gostou?
- Eu adorei! Gostei mais ainda de ter beijado você!



Danilo levou Júlio a sua faculdade e o apresentou a todos os amigos presentes. De toda a paixão aflorada neste dia ficou uma promessa. A promessa de que se veriam outra vez e que uma grande relação amorosa estava apenas por começar. Despediram-se com um longo beijo e combinaram de se falarem mais tarde pela internet.

Ambos foram embora esbanjando felicidade. Nunca em suas vidas haviam sentido algo intenso em tão pouco tempo. Estavam namorando e o desejo era mostrar para todo o mundo o quanto estavam se amando. Por vezes se encontravam. Nada com muita assiduidade porque os dois eram bem atarefados. Mas cada vez que se encontravam, mesmo que fosse uma vez por semana, era o suficiente para se entregarem por completo um ao outro. Beijos e carícias em todo o tempo. Não se importavam com nada e com ninguém. Faziam de tudo para serem felizes.

Júlio era mais ousado que Danilo. Trocavam carícias e beijos em quase todos os lugares, exceto alguns onde a presença de alguém conhecido poderia ser constante. Danilo demorou a se acostumar com isso. Sempre possuía certo receio. Certo medo da violência muito presente na cidade onde moravam. Entretanto, Júlio parecia bem aquém disso. Criavam inúmeras situações onde a ousadia era a palavra-chave. Um desafiava o outro. Em meio a olhares, deboches e reprovações continuavam sua empreitada. Certa vez se enfiaram em vielas desertas a noite buscando mais privacidade. Danilo não quis ficar por muito tempo, deixando Júlio um tanto chateado.


- Vamos ficar aqui?
- Aqui Júlio? Um monte de gente passando...
- Que nada, nem vão reparar nada!
- Vem cá! Me dá um beijo! Me abraça!
- Hum... que gostoso! Que boca gostosa!
- Estou sentindo algo crescer entre as minhas pernas... Será que você sabe o que é Júlio?
- Se você pegar, eu acho mais fácil de saber...
- Hum... Será que devo? Alguém vai passar e nos ver...
- Vai nada Danilo, pára de palhaçada! Olha como ele está! Só esperando você pegar...
- Além de pegar eu vou fazer outra coisa também...
- Hum... Isso... Assim que é gostoso! Que todos vejam!
- Agora é sua vez! Meu “Dick” está cheio de vontade de ser tocado...
- Só isso Danilo?
- Não, ele também quer sentir certa boca carnuda, de um garoto “piranhudo” que fica vagando pelas ruelas desertas...
- Hum... Então sou eu mesmo!
- Vai em frente que assim está gostoso! Não pára não...
- Agora chega Júlio... Estamos arriscando demais! Vem me beijar mais que eu já estou indo embora. Está tarde!
- Mais já! Vamos ficar mais...



O clima esquentou neste dia, porém por conta de Danilo nada além de sexo oral aconteceu. Júlio estava um tanto chateado porque ambos estavam com muito desejo. Havia muita excitação naquelas carícias, entretanto para Danilo uma “transa” não poderia acontecer ali. Não a primeira. Esta deveria ser especial.

Situações como essa aconteceram de monte. Qualquer lugar poderia ter um espaço para os dois demonstrarem o amor que sentiam um pelo outro.





3


As semanas foram passando e o sentimento de ambos só fora aumentado. Não deixavam de se falar um dia sequer. Nem que seja para dizer “oi” ou um sincero “eu te amo”. O tempo que passavam separados era muito para tanto sentimento que necessitava ser explicitado. O telefone não parava de tocar. Sempre quando dava vontade um ligava para o outro. Parecia que transmitiam pensamentos. Um simples “pensar” gerava uma ligação com a voz de alguém dizendo frases bonitas.

O aniversário de Danilo estava chegando. Dia 02 de março era o famoso dia. Este ano algo a mais deveria ser comemorado. A chegada de Júlio. Marcaram em uma pizzaria. Deveria ser algo coletivo e com a presença de muitos amigos. Danilo chegou prontamente na hora determinada com a presença de Júlio. Tudo transcorreu muito bem. Muitas risadas e brincadeiras sucederam a comemoração. Um bolo surgiu de surpresa e junto dele uma declaração pública de amor. O presente era uma carta, mas não poderia ser aberta ali. Danilo quis reservar a intimidade.

Após o término das comemorações, Júlio convida Danilo para ir em sua casa. Sem muito pensar, ele de imediato concorda. Ambos em determinado momento só pensavam em uma coisa: hoje vai ser nossa primeira noite de amor! Chegando na casa de Júlio, Danilo abre a carta e ao lê-la se emociona.


Danilo.

É maravilhoso saber que a vida nos prepara surpresas. E o melhor é saber que essa surpresa é você!

Hoje eu sei que posso falar sem problemas sobre o meu amor, pois agora eu sinto!

Hoje eu sei que sempre que eu acordo, existe um alguém que está pensando em mim e está se perguntando como eu estou e se estou pensando nele. Enfim, é maravilhoso sentir esse amor tão grande, que eu nem sei como cabe no meu peito. É como se meu coração fosse igual ao universo antes do big bang! Tem densidade infinita e é do tamanho de uma bola de ping pong.

Por mais que eu tente explicar ou entender o quanto eu te amo, nunca vou conseguir dizer ao certo, mas posso dizer hoje sem dúvidas que você é a minha maior certeza!
Antes buscava uma palavra para substituir a palavra amor. Hoje busco o melhor jeito de demonstrar esse amor. Te amar é tão mágico, tão agradável, tão maravilhoso que daria tudo para dormir e acordar ao seu lado. Acordar antes de você e fazer carinho em você dormindo, tomar café ao seu lado, tomar banho ao seu lado, sonhar ao seu lado, me sentir livre ao seu lado!

Eu sempre procurei alguém que entendesse o que diz o meu coração, hoje encontrei uma pessoa que não apenas sabe o que diz o meu coração, mas que o cuida, o mima e o alegra todos os dias.

Para minha vida ficar perfeita só falta você e eu juntos numa casa só nossa, para nos amarmos sem nos preocupar com nada. Onde nossas noites seriam quentes e longas, noites essas que nossos corpos febris de amor não se agüentariam até o último suspiro de desejo. Onde nós esgotados diríamos suados um para o outro: eu te amo!

Ps: Mô! Não dá para escrever tudo em um papel. Para você ter uma idéia, isso não é nem um resumo do que eu sinto por você. Digamos que é um parágrafo! Rs! Te amo!
Você é a maior realização da minha vida! Eu te amo!

Júlio.



Ao terminar de ler a carta, as lágrimas nos olhos de Danilo teimavam em cair sem o menor controle. Ele desaba em choro. Não estava acreditando em tamanha prova de amor. Ninguém nunca havia o escrito uma carta tão linda. A vontade era de tê-lo para sempre. Tudo o que Júlio disse era a mais pura verdade. Danilo sentia e desejava o mesmo.

Naquela noite, sozinhos naquele quarto, tudo estava propício para a realização do tão sonhado ninho de amor. Seria o complemento do presente de aniversário. Ambos unidos em um só corpo. Em um só desejo. Únicos em vida.

Os beijos se tornaram mais intensos e as carícias mais pretensiosas. A descoberta dos corpos começara. Um explorando cada pedaço, cada centímetro do corpo do outro. Em cada carícia demoravam horas. A pressa é inimiga da perfeição e naquele momento tinham todo o tempo do mundo. Não tinham uma sequer preocupação. O momento era unicamente dos dois. Abraçados se perdiam em meio a beijos e carinhos. Juntos experimentaram o que é a completude da relação amorosa. Nada mais poderia os separar. Nem em vida e nem em morte. Estariam juntos para a eternidade. Um amor tão puro e verdadeiro jamais seria esquecido.





4


A partir daquela noite, a paixão se tornou ainda mais intensa. A chegada da intimidade trouxe mais união ao casal. Agora os dois estavam explorando mais um plano. O da sexualidade. Cada noite de amor se tornava muito melhor, conforme iam se descobrindo. Conheciam cada parte do corpo um do outro. Não tinham vergonha e nem medo de seguirem em frente. Estavam dispostos a tudo por este amor.

Certa noite resolvem ir para algum motel. Lugar para intimidades era difícil para ambos. Escolheram o mais próximo de onde estavam. Júlio neste dia havia caprichado na vestimenta. Estava com uma blusa social, uma calça jeans e sapato. Danilo como gozava de um visual mais moderno usava uma calça jeans, tênis “allstar” e uma camisa. Seria mais uma noite de descobertas...

Divertiram-se muito. Descobriam-se como duas crianças. Sem se importar com nada, o mundo se resumia naquele quarto de motel. Juntos fizeram a maior bagunça naquela noite. Usufruíram de tudo o que havia no frigobar e esgotados caíram na cama e só acordaram no dia seguinte.


- Bom dia amor!
- Bom dia!
- Caramba, que bagunça a gente fez!
- Nem pensamos em nada. As camareiras vão xingar muito a gente!
- Sujamos tudo. Tem uma embalagem de chocolate debaixo de você.
- Meu deus! O que fizemos com esse chocolate Júlio?
- Você usou para me chupar e eu usei para chupar você!
- Hum...
- A gente precisa ir embora, neh? Já avisou sua mãe que vai se atrasar?
- Não.
- Vamos pedir a conta!
- Além do quarto que já está pago deu 120 reais senhores.
- Caralho! Danilo! A gente acabou com o frigobar. A conta ficou muito cara.
- Relaxa! Eu tenho aqui.
- Vamos?
- Sim.
- Ai Júlio, só a gente mesmo para gastar tanto dinheiro num quarto de motel.
- Hehehe! É verdade. Mas eu não tinha noção que pudesse ficar tão caro.
- Nem eu. Mas o que importa é que estávamos juntos e isso não há dinheiro que pague a minha satisfação. Ao seu lado eu sou muito feliz!
- Eu também. Não me arrependo de nada! Inclusive podemos repetir esta “aventurinha” mais vezes.
- Bobo! Me leva no ponto de ônibus?
- Sim.






5


Uma viagem estava a caminho. Danilo haveria de ir a um evento da faculdade e tinha em mente levar Júlio. Seria para uma cidade vizinha, pouco tempo de viagem. Nada que influenciasse tanto na rotina de ambos. Júlio acaba topando a viagem, porém teriam de inventar alguma coisa para sua mãe. Danilo então diz que Júlio ficaria na casa de um tia dele e que não haveria problema algum.

Viagem marcada e tudo combinado. O ônibus sairia à meia-noite e chegaria às seis da manhã no destino. A viagem transcorreu tranquilamente. Muitos amigos de Danilo também foram e Júlio tratou de ficar íntimos de todos eles. O evento estava uma verdadeira façanha a moda brasileira. Total desorganização. O alojamento era precário. Todos dormiam amontoados em seus colchões. A alimentação por vezes faltava. Porém, como era gratuito não poderiam de muito reclamar. Afinal, conhecemos nosso país.

Na primeira noite, Danilo e Júlio resolveram passear em um jardim do clube onde o evento estava acontecendo. Havia alguns bancos e determinadas plantas exóticas, porém aquilo mais parecia pequenos becos cercados de mato maltratado. Jardim era modo de dizer. Também estava muito escuro. Algumas pessoas estavam sentadas e outras caminhando como os dois. O clima esquentou no primeiro beco deserto. Beijaram-se loucamente e com carícias demasiadamente maliciosas por pouco não transaram ali mesmo. Por hora alguém aparecia ou fazia algum barulho, os deixando tensos. O perigo estava no ar e isso os proporcionava uma grande sensação de prazer. Entretanto, Danilo já havia provado que não era adepto a perigos. Tinha a prudência como uma virtude. Tudo aquilo não passava de uma grande inconseqüência. Temia a hipocrisia das pessoas. Júlio excitadíssimo não realizou o seu intento. Danilo o convenceu a voltar para o alojamento. A noite não foi tranqüila. Dormiram pensando no que poderiam ter feito.

O evento já estava causando um grande estresse em Danilo. Toda a desorganização não dava ânimo algum. O que ele mais queria era voltar para casa e esquecer tudo aquilo. Resolve voltar antes do previsto e sai a procura de ônibus para a partida. Júlio não gosta muito da idéia. Não estava afim de voltar antes do combinado e num gesto impensado Danilo provoca a primeira briga do casal.


- Ai, gente! Eu não agüento mais isso aqui! Estou ficando estressado e com muita raiva de tudo. Eu quero ir embora logo!
- Ai Danilo, relaxa! Você está comigo e eu não quero ir embora não. Vamos curtir!
- Curtir? Isso aqui está um horror. Olha se você quiser ficar, fica, mas eu estou indo embora. Tem os meus amigos e você pode ficar com eles!
- (confuso) Não estou te entendendo Danilo. Se eu vim por causa de você. Para ficar com você. Qual o sentido de eu ficar e você ir embora?
- Ai, sei lá, você pode ficar com meus amigos, ué! Você já os conhece muito bem!
- Não, não... Nada a ver isso. Não gostei disso!



Ficaram um tempo sem trocar uma palavra sequer, entretanto Danilo ainda nutria a idéia de voltar para a casa. Júlio estava inconformado com as palavras dele. Não havia entendido o porquê de tamanha besteira. Danilo resolve não ir mais embora depois de ter pensado no que disse e nas palavras de Júlio. Até voltarem a se falar demorou algumas horas, mas Júlio ainda estava irritado. Em pequenos gestos de menino mimado tratou de irritar Danilo o resto do dia. No final da tarde, a discussão da relação aconteceu. Ambos falavam de alguns defeitos um do outro e tentavam com inúmeros argumentos provar a verdade dos fatos. Cada um não estava satisfeito com a atitude do outro. Danilo odiava brigas. Um casal que se amava para ele não poderia perder tempo com isso. Só criava um desgaste desnecessário. Como possuía uma grande sensibilidade, em determinado momento não se conteve e caiu em choro. O perdão veio de imediato.


- Eu não estou gostando destas suas atitudes Júlio. Ao invés da gente conversar você está agindo como uma criança mimada!
- Eu não estou.
- Está sim. Está agindo como se quisesse me dar o troco.
- Então você tem consciência do erro que cometeu?
- Claro que eu tenho, mas isso não justifica as suas atitudes idiotas.
- Até a Roberta concordou comigo e disse que você agiu errado.
- Como assim? Então quer dizer que você fica contando para os meus amigos o que acontece com a gente? Agora, além de ser julgado por você e eu ainda vou ser por eles? Isso não está certo... O que acontece com a gente diz respeito a gente! Também não gostei disso se você quer saber.
- Eu precisava saber uma segunda opinião.
- Então está bem Júlio. Você está certo e tem toda a razão. Chega!



Danilo termina a conversa e vira para conversar com um amigo que estava alguns metros de distância dos dois. Em um gesto quase que automático, ainda lotado de uma indignação sem tamanho, ele começa a contar para seu amigo o ocorrido. Renato ouve Danilo como um psicólogo em exercício. Passa todo o tempo prestando a atenção sem nada dizer. Cauteloso ao extremo, Júlio tinha chegado perto dos dois e estava ouvindo a conversa. Danilo quando se dá conta leva um susto e a discussão recomeça, porém desta vez não por muito tempo.


- Caramba, Júlio! O que você está fazendo aqui? Você ouviu o que eu falei?
- Sim, ouvi. Você me fala uma coisa e vai fazer o mesmo?
- Ah, eu não gostei que você foi falar com a Roberta sobre isso. Eu estou sufocado! (começando a chorar)
- Eu estou me sentindo julgado. Sentindo como se todo mundo tivesse contra mim. Eu fui falar com ele para desabafar. Até meus amigos estão contra a mim. Desculpa. Eu sei que agi errado, mas não precisava fazer tudo isso. Estou me sentindo péssimo. (chorando)
- Vem aqui me abraçar!



Após Danilo ter soltado em lágrimas, nos braços de Júlio, o que lhe afligia tudo estava resolvido. Os erros estavam perdoados. Da primeira discussão, o primeiro sinal de reconhecimento. Estavam se conhecendo a cada dia mais. A briga não foi de fato à-toa. Terminaram o dia se amando ainda mais.

Na volta para casa, a viagem foi tranqüila excetuando-se alguns engarrafamentos. Era meia-noite quando embarcaram e após algumas bagunças de adultos em desenvolvimento todos se posicionaram para dormir e as luzes foram apagadas. Danilo e Júlio continuaram acordados. Dividindo um mesmo lençol, os dois começaram a namorar. O desejo de uma relação sexual já estava acumulado há alguns dias e com isso atingir o auge da excitação foi fácil.


- Eu adoro beijar você, sabia?
- É mesmo Danilo. Eu te amo!
- Eu também te amo muito. Vem me abraçar, me beijar, me encher de carinho.
- Assim esta estória não vai dar certo. Já estamos cheios de vontade.
- Ah, rapidinho, quero sentir você bem pertinho de mim...
- Hum... que gostoso! Se você ficar com este dedo ai eu não vou agüentar de tesão.
- Mas é isso que eu quero! Mas onde sua mão está é muito mais perigoso!
- Ai, ai, ai...
- Ei, Dani, não geme alto. Alguém pode ouvir ou acordar. Geme baixinho no meu ouvido que eu estou adorando. Vai...
- Eita! Eu não acredito que você gozou na minha mão Júlio... Caramba! Sujou tudo! O lençol, tudo!
- Ué! E você queria o quê? O que você estava fazendo só poderia dar nisso... Hehehe!
- Ai, se controlava neh!!!






6


Danilo havia se tornado visitante assíduo da casa de Júlio. Como se viam pouco, quase todo final de semana ele ia visitá-lo. Conhecia toda sua família. Com jeito tímido não conquistava de imediato. Precisava de mais tempo para se soltar e mostrar que não era tão sério quanto parecia. A irmã de Júlio não gostava dele. Sabia o que rolava entre os dois. Na verdade, todos sabiam. A maneira como os dois se olhavam denunciava tudo. Amavam-se tanto que não conseguiam esconder o que sentiam. A mãe de Júlio demonstrava não se importar muito com a situação. Os dois eram profundamente próximos.

Um passeio para uma cachoeira natural estava marcado. Mais ou menos uma hora de viagem e chegariam ao local de destino. O local era muito bonito. Entre montanhas e trilhas enganosas se escondia um paraíso a céu aberto. Uma imensa cachoeira com quedas d’água alucinantes.

Apesar de não estarem sozinhos na cachoeira, estavam bem à vontade. Comportaram-se como um “verdadeiro” casal de namorados. Sentaram em umas das pedras para admirar a linda paisagem. Júlio estava agarrado por trás de Danilo, o abraçando fortemente. Namoraram bastante, fizeram brincadeiras, contaram estórias, tiraram fotos e se encheram de guloseimas. O dia estava perfeito. Algumas pessoas passavam e com um ar de deboche faziam comentários preconceituosos, mas isso não deveria importar para os dois.

Na volta para casa, caminhando em direção ao ponto de ônibus, foram abordados por dois homens numa situação um tanto ousada. Um negro e um branco carregavam uma proposta indecente.


- Poxa, eu adorei o nosso dia amor?
- Que bom que gostou! Eu também adorei tudo. Você é um amor!
- Ainda estou impressionado com as estórias que você me contou, Júlio. Não acredito que tenha coragem...
- Por que esses “caras” estão olhando para a gente, você reparou?
- Sim, reparei sim. Acho que vão vir falar com a gente. Certamente, querem alguma coisa que você sabe muito bem o quê.
- Vem cá! Vocês são gays neh?
- Não.
- Não.
- E vocês namoram neh?
- (Danilo) Olha só, Nós já dissemos que não somos gays, ok? Tchau!
- São sim. Eu sei que são... Olha! Eu estou com meu amigo ali e a gente está a fim de sair de com vocês. E ai? Um para cada um. Depois a gente dá carona para vocês. Estão indo para onde?
- (Danilo) Não cara, nada a ver. Até!
- Tá bom! Mas que vocês são gays eu sei. Tem certeza que não querem? A gente vai embora, heim!
(Silêncio)
(Os dois vão embora)
- (Risos) Ai gente! Que absurdo! Esse povo é muito abusado mesmo... Não é Júlio?
- (Um pouco longe dos dois) Olha lá! Eles estão rindo... Sabia que eles queriam! Vamos embora! A gente dá carona para vocês!
- Estão loucos mesmo! Fala alguma coisa Júlio! Está gostando neh?
- Eu ia escolher o “pretinho”!
- (Irritado) Filho da p... Eu aqui indignado com a situação e você pensando em fazer sacanagem com eles. Não acredito que você falou isso!
- Ah, o que tem? Eu ai escolher o “pretinho” mesmo...
- Se você ainda quiser ainda tem tempo. É só sair correndo como uma puta sem rumo que você os alcança. Onde já se viu! Nem conhece os “caras” e vai se enfiar no mato para chupar “piroca”. Que perigo!
- Ah, não sei!



Situações inusitadas como esta aconteciam a todo instante com os dois. Entretanto, também gostavam de ousar por si próprios.

A descoberta do amor - parte II



7


Na falta de um lugar mais reservado para namorarem, descobriram um cinema que passava um único filme e num preço bem acessível. Quase toda semana passavam por lá. Não agüentavam mais ouvir as músicas da trilha sonora. A mulher que vendia os ingressos já os conhecia e os estimava muito. Quando sumiam, com certa ousadia perguntava o motivo. Mas, não iam ver filme algum. Aliás, como era um péssimo cinema, outros homens também iam satisfazer suas vontades.

Conversavam, faziam planos e ficavam horas se beijando. Por vezes eram interrompidos por cantadas ou insinuações de o todo tipo de homens que procuravam só satisfazer seus desejos. Não davam importância e nem ligavam para isso. Ao menos Danilo se negava a tudo aquilo. Júlio se envolvia em situações duvidosas.


- Este velho já está me tirando do sério! Será que ele não vê que está sendo inconveniente demais. A gente não vai fazer nada com ele!
- Tá foda mesmo Danilo. Mas liga não, relaxa!
- Hum...
- Vou ao banheiro rapidinho amor.
- Ok!
- Caramba. Nem te conto!
- O que foi, Júlio?
- Não tem aquele velho que estava aqui?
- Ahan!
- Então. Eu estava no banheiro e ai ele chegou perto de mim e pediu para eu chupá-lo.
- (Intrigado) E ai? Você fez o quê?
- Ah! Eu disse para ele que topava e me abaixei para chupar. Quando ele estava gostando eu dei uma mordida bem forte no pênis dele. Ele ficou lá no chão se contorcendo de dor.
- (Indignado e confuso) Como assim, garoto? Não acredito que você fez isso... Que loucura!
- Estou falando sério!
- Então vamos embora, neh? Vai que ele se recupera e volta. Vai querer bater na gente!
- É! Vamos!



Aquela situação de fato deixou Danilo muito intrigado. Não sabia muito no que acreditar. Será que Júlio havia feito realmente aquilo ou mentiu? E por que mentiria? Não sabia nem o porquê dele ter contado o ocorrido. Mas, enfim, eis que surge a primeira dúvida. A primeira leve desconfiança. Não se pode confiar cegamente em alguém. De certa forma, Danilo estava aprendendo isso.

O cinema também reservava outras aventuras e ousadias. Certa vez entraram os dois no banheiro e sem se importarem com a entrada de alguém se amaram como duas crianças se descobrindo. O perigo de alguém entrar repentinamente os excitava. Chupavam um ao outro com uma força e vontade tremenda. Quase transaram ali mesmo. O gozo foi inevitável.





8


Cada dia que não se encontravam era um martírio. Às vezes não se viam por mais de uma semana devido às obrigações de ambos.

Havia um bom tempo que não se encontravam. Mais ou menos duas semanas. Marcaram na casa de Júlio. Danilo estava com uma gripe fortíssima. Mesmo com febre e com extremo cansaço ao invés de se dirigir ao médico foi encontrar seu amado. Júlio sem saber da situação leva um susto ao saber que Danilo estava doente. Não se conforma, mas cuida dele como uma enfermeira amante de seu exercício. Combinam de ver um filme. Na época, “O segredo de Brokeback Mountain” era a sensação. Assistem quase tudo juntos, contudo no final Danilo dorme no colo de Júlio. O cansaço era grande e a febre havia aumentado.


- Ei, você dormiu!
- É... E nem vi o final do filme. O que aconteceu?
- Ah, aquele que você disse que era a “passiva” morre no final. Uns caras matam ele.
- Caramba. Que horror! Depois vou ver de novo. Sempre sobra para a “bicha” no final das contas. Ninguém merece!
- (Risos) Você está melhor? Parece que ainda está com febre. Deixa eu pegar um pano gelado. Peraí.
- Tá bom!
- Você é louco mesmo. Vir para cá estando doente deste jeito.
- Ah, tranqüilo. Não estou morrendo. E além do mais, tinha um tempo que a gente não se via. Eu tinha que vir. Estava com saudades!
- Eu também estava morrendo de saudades de você! Me beija!






9


Estavam no mês de maio. Outra viagem estava marcada. Porém, desta veze Júlio não iria. Seria difícil convencer sua mãe mais uma vez. A outra havia sido muito recente. Danilo iria sozinho.

No dia do embarque, Júlio vai se despedir. Todos se aprontavam para subir no ônibus e partir. Enquanto isso não acontecia, Danilo conversava com seus amigos e Júlio se entrosava. Renato indaga porque Júlio não iria nesta viagem e tenta o convencer a ir com todos. Ele hesita e diz que não estava preparado no momento. Não havia trazido bagagem e nem dinheiro. Confabulações e mais confabulações, Danilo consegue uma vaga no ônibus para Júlio e consegue finalmente convencê-lo a ir. Danilo estava com dinheiro para ambos e Renato poderia emprestar algumas roupas. Tudo resolvido e o ônibus têm a autorização para partir.

A viagem estava sendo muito proveitosa para ambos. Desta vez uma cidade do interior, mas que dava para se divertir bastante. O evento estava mais organizado que o anterior. Até Júlio estava participando dos debates e discussões.

Todas as noites, após todas as obrigações, a comissão organizadora preparava uma sessão cultural. Mostravam as danças típicas da região, realizavam baladas e rodas de conversa. Enfim, um divertimento a parte que fugia da seriedade do evento. Certa noite, depois do último debate do dia, Júlio não estava com vontade de assistir a sessão cultural e disse que voltaria para o alojamento. Danilo por sua vez, disse que iria assistir, mas que logo voltaria. Júlio retornou um tanto indignado.

A noite cultural estava bem interessante. Passaram-se algumas horas e Danilo ainda estava a assistir. Porém, a lembrança de que Júlio o estava esperando veio a cabeça. Deveria ir ficar com ele ou convencê-lo a ficar com todos. Indiretamente, Danilo provoca a segunda discussão do casal.


- Porra Danilo! Onde você estava?
- Eu estava assistindo a sessão cultural, ué? Eu disse que estaria lá. Só que eu me empolguei e esqueci da hora. Está muito interessante!
- Então quer dizer que você esqueceu de mim?
- Não é isso, amor. É porque está muito legal mesmo. Acabou prendendo a minha atenção.
- Quando eu disse que viria para o alojamento era para você voltar comigo. Não era para ir para a festa. Ficar se divertindo sem mim. Esqueceu mesmo que eu existo!
- Ai, Júlio, sinceramente eu não entendi que você queria voltar comigo. Não poderia ser mais direto? Eu quis assistir a noite cultural e depois voltaria para ficar com você. Que mal tem nisso?
- A questão é que você esqueceu de mim aqui. Eu fiquei horas esperando você e nada de você aparecer. Me senti sem importância para você! (fixando o olhar em Danilo e falando com alta seriedade)
- Não me olha assim! Você entendeu tudo errado. Desculpa. Eu realmente fiquei muito tempo lá, mas não esqueci de você e muito menos acho que você não tem importância para mim. Eu vim te chamar para ficar lá com a gente!
(Silêncio)



Danilo vira de costas para Júlio e deitado chora bem baixinho. Um choro quase sussurrando. Um sentimento de culpa e de injustiça o invade. Não havia feito nada demais.


- Danilo! Vira para mim. Olha para mim!
- (Danilo vira-se e olha fixamente para Júlio)
- Vem me dá um abraço!
- Desculpa! Eu nunca ia esquecer de você. Você é tudo para mim! Eu te amo! (desabando em choro)
- Não chora! Me desculpa também. Eu sou muito insensível! Não gosto de brigar com você! Eu te amo!
- Vamos para a festa?
- Vamos!



Uma festa “trans” no último dia do evento era o que todos comentavam. Os homens deveriam estar vestidos de mulher e as mulheres de homem. A princípio Danilo e Júlio não participariam. Não usariam roupas femininas, pois não tinha levado. Entretanto, as amigas de Danilo insistiram para vesti-lo. Estavam empolgadas porque ele tinha um corpo feminino e um rosto delicado. O cabelo grande iria ajudar. Ficaria bem menina. De fato estavam certas. Usando uma blusa, uma saia e uma sandália, ele havia ficado bonita. Júlio acabou indo no embalo e vestiu-se também.

Agora teriam de inventar um nome para cada personagem. Renato como era negro, gordinho e estava bem caricato com um batom vermelho reluzente apelidaram de “Rose soca-soca”. Júlio por sua cara de quem adorava uma “pegação” apelidaram de “Drink esperm”. Danilo foi o mais difícil. Não conseguiam pensar em nenhum apelido. Sua vestimenta não estava caricata para tal. Leandro e Isabella deram a idéia de “Letícia” porque Danilo havia ficado com cara de mulher safada.

Na festa, todos se divertiram. O trio “Rose soca-soca”, “Drink sperm” e “Letícia” foram a sensação. Todos comentavam. Em especial, Danilo chamava mais atenção. Suas amigas estavam encantadas com o jeito delicado e feminino que ele havia dado a personagem. De fato sabia ser uma mulher com estilo.

No final da festa, todos voltaram juntos para o alojamento. A universidade onde estavam hospedados possuía um campus grande e muito bonito. As construções históricas se misturavam com outras mais modernas, sem contar os jardins e rios que envolviam o lugar. Em um gesto inocente de eterno apaixonado, Danilo agarra Júlio por trás e desperta um desejo inesperado entre os dois.


- Ei, garota! Eu estive olhando para você a festa inteira e você nem me deu bola!
- Eu não dou confiança para meninas intrometidas feito você. E para de me agarrar. Eu não quero nada com você!
- Ah! Deixa eu te abraçar assim mais um pouquinho. Está muito gostoso. Você assim de “sainha” curta está uma delícia. Me dá um beijo!



Chegaram no alojamento e foram direto para seus aposentos. Danilo despertou em si mesmo um desejo jamais sentido. Estava com vontade de inverter os papéis. Entre o casal, Danilo era sempre passivo e Júlio ativo. Neste dia, as coisas mudaram. Como um adolescente virgem, Danilo realizou seu desejo. Júlio havia gostado, porém pela segunda vez deixou em Danilo certa desconfiança. Júlio havia dito que jamais tinha sido passivo, contudo sua performance para um iniciante foi perfeita. Gozou em questão de minutos. Antes mesmo de Danilo.

A festa “trans” havia terminado, mas Júlio gostou da saia que usou. Continuou usando-a no outro dia. Não revelando por qual motivo realizava o intento. Com isso, outra coisa também não mudou. Danilo pela segunda vez foi ativo na relação. Algo estava mudando e ambos pareciam estar gostando disso. Danilo experimentava o prazer de “comer” alguém. De fato havia comprovado o que pensava. Ser ativo é muito mais tranqüilo que ser passivo. Sem demasiadas dores e desconfortos, o gozo era inevitável. Entretanto, estavam sentindo falta dos velhos tempos. Por mais que fosse gostoso, Danilo sentia falta do outro lado. Era o que lhe deixava confortável. O que realmente lhe dava prazer. Júlio também não estava gostando da mudança e logo resolveram voltar aos papéis iniciais.

A viagem tinha sido perfeita. Depois da segunda discussão tinham se conhecido por completo. Os dois estavam no auge da relação. O momento de maior amor. Já tinham se conhecido o suficiente. Agora possuíam motivos suficientes para se dedicarem cada vez mais ao relacionamento.

No ônibus de volta para casa, estavam muito felizes um ao lado do outro. Planos de casar e morar juntos eram freqüentes. Era o que faltava. Ao som de “Um certo alguém” de Lulu Santos iniciaram uma sessão de declarações de amor, os deixando muito emocionados.


“Um certo alguém” – Lulu Santos

Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção

E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção

Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição

E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar

Me dê a mão
Vem ser a minha estrela
Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver
Que eu viver, uoh, uoh

E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar


- Eu adoro esta música, Júlio. Já prestou atenção na letra? É a nossa música!
- Sim. Tem tudo a ver. Deixa eu falar uma coisa no seu ouvido?
- Deixo.
- Só você me faz feliz! Desde a primeira vez que te vi vindo ao meu encontro. O seu jeito de andar, seus cabelos balançando no ombro, tudo isso me deixou encantado.
- Ai, Júlio. Assim eu vou chorar. Você é muito importante para mim! Eu nunca amei ninguém como eu amo você. Com você eu aprendi que o amor realmente existe. Você me ensinou tantas coisas.
- Eu nunca amei ninguém em tão pouco tempo. Você faz a minha vida ter mais sentido. Você me entende. Me completa. Me compreende. Se eu perder você acho que não sei se conseguiria viver. (chorando)
- Eu quero você para sempre! (chorando) Você sempre estará comigo. Não importa o que aconteça. Eu nunca vou esquecer o que você representou na minha vida. Todos os nossos momentos estarão guardados no meu coração. Uma parte dele já é todo seu!
- Eu te amo!
- Eu também te amo muito!



Chegaram em suas casas com a certeza de que viveriam juntos até a morte. Todos os planos para o futuro seriam concretizados. Era questão de tempo. Todavia, como nada poderia ser perfeito, alguns problemas começaram a surgir na vida do casal. Cada vez mais encontravam dificuldades para se verem. Júlio era muito atarefado. Tinha o seu tempo semanal todo tomado com a escola, o trabalho e as aulas particulares. Danilo também possuía pouco tempo, mas sempre dava um jeito de burlar estas questões. Danilo era mais flexível. Para ele, Júlio era mais importante que tudo isso. Júlio, por sua vez, era mais realista. Suas obrigações eram tão importantes quanto o namoro e isso gerava grandes conflitos.

A família de Júlio também o estava pressionando muito. A notícia de que iria morar junto com Danilo não foi muito bem recebida. Este que já não era tão querido teve de não mais visitá-los.

Uma viagem de intercâmbio para os Estados Unidos que seria realizada por Júlio causou mais uma confusão na vida do casal. Danilo estava no último ano da faculdade, não poderia largar tudo para ir com ele. Júlio queria Danilo junto com ele, mas aquilo não seria possível. A viagem estragaria planos dos dois. Seria um risco desnecessário. Para Danilo, deveriam ficar onde moravam mesmo. Poderiam realizar todos os anseios e esta viagem poderia ser pensada depois.

Com todas estas preocupações, o inevitável aconteceu. Os dois estavam se afastando. Nada mais dramático. Aquele amor que se mostrava tremendamente sólido parecia estar se desfazendo. Danilo estava se desesperando. Não deixara de amar Júlio. Era só questão de tentar uma nova aproximação. Deveriam se ver mais. Danilo estava disposto a tudo para não acabar com esta relação tão pura e verdadeira.





10


Dia 12 de junho estava se aproximando. O primeiro dia dos namorados juntos seria muito importante. Já estavam cheios de planos. Pensavam em tantas coisas que nem sabiam o que iriam fazer. Danilo estava empolgado. Preparava um presente especial. Tudo deveria ser feito para resgatar a intimidade que tinham antes. Ele ficou dias preparando o tal presente. Uma carta de amor e um rolo com mais de mil “eu te amo” escritos a mão. Dedicou-se a isso como uma fã enlouquecida por seu artista preferido. Tinha a certeza que Júlio iria gostar.

No tão esperado dia combinaram inicialmente na casa de Júlio. Não havia ninguém em casa. Poderiam conversar, namorar e decidir o que iriam fazer a noite. Júlio ficou encantado com o presente. Nunca havia recebido tamanha prova de amor em sua vida. Leu a carta com os olhos cheios de lágrimas. Uma esperança havia surgido. Não deixavam de se amar. Realmente, só deveriam repensar a relação. Dar as devidas importâncias necessárias para que tudo desse certo. Entretanto, Júlio estava um tanto estranho. Danilo não sabia explicar muito bem o que havia percebido. Mas, algo não estava certo. Alguma coisa incomodava Júlio.

Combinaram de sair à noite para um jantar especial e foram se encaminhando para o ponto de ônibus. Danilo iria para casa se arrumar para o encontro. No ponto mesmo, trocaram algumas palavras bonitas e logo Danilo embarcou.


- Você está bem Júlio? Estou sentindo você um tanto estranho. Aconteceu alguma coisa. Você quer conversar?
- Não querido. Eu estou bem! Eu adorei o seu presente. Nunca pensei em receber tamanha prova de amor. Sem você minha vida não tem o mesmo sentido!
- Ah, eu te amo! Não quero que nada estrague o que sentimos um pelo outro. Você é tudo para mim!
- Olha amor! Seu ônibus está vindo. Vai lá ficar bem bonito para a nossa noite de eterno namorados. Te amo!
- Eu também! Beijos!



Danilo entrou no ônibus e só dando tempo de pagar a passagem e se dirigir ao banco, o que possibilitou ao motorista avançar alguns metros, ele ouve um grande barulho misturado com um som forte de uma freada de carro. Imediatamente, um aperto invade o seu coração. Uma dor implacável. Uma angústia fora do comum. Pede para o ônibus parar e desce. Encaminha-se para uma multidão que se forma em volta do ponto onde acabara de estar. Neste momento, não consegue pensar em nada. Está concentrado em chegar onde as pessoas estão e ver o que aconteceu. Ouve-se muita gente falando. Muito disse-me-disse. Mas, nada de real concreto. Ao chegar no ponto pergunta o que houve. Alguém responde que um carro vindo em alta velocidade perdeu a direção e atropelou algumas pessoas que estavam no ponto. A angústia aumenta cada vez mais. O coração pede para não seguir em frente. Entretanto, Danilo precisava prosseguir. Abrindo espaço na multidão, finalmente consegue chegar onde queria. Ao todo, cinco pessoas foram atingidas. Algumas estavam feridas, porém uma em especial chamava a atenção. Um jovem aparentando 18 anos que estava atirado ao chão. Em volta de sua cabeça uma poça enorme de sangue. Este foi o primeiro a ser atingido.

Danilo reconheceu Júlio na primeira olhada. Não acreditava no que via. Em minutos atrás, ele estava ali, vivo, conversando. E agora estava morto. Continuava com a mente vazia. Em nada pensava. Seus olhos não paravam de olhar para o corpo de Júlio. Era inevitável conter as lágrimas. Elas desciam em seu rosto a cada piscada de olhos. E Danilo continuava no mesmo lugar. Estático, imóvel, impenetrante. Sua expressão no rosto não mudava. Estava a ponto de enfartar. Só seu coração respondia. Batidas fracas diziam que algo estava errado. Uma dor como jamais havia sentido o invade. O coração responde aos sentidos. O sofrimento o acomete.

Danilo a passos que poderiam ser contados a olho nu se dirige ao corpo de Júlio. A cada movimentação das pernas, a cada passo uma lembrança lhe vinha a cabeça e uma lágrima escapava dos olhos. Chega ainda estático ao corpo de Júlio. Em um instante, se ajoelha e deitando a cabeça sobre sua barriga desaba em choro. As lembranças não paravam em sua mente. Para os outros, Júlio estava morto, porém para Danilo ele estava vivo.


- Ah, meu amor! O que fizeram com você? Você era tudo o que eu tinha de melhor nesta vida. Você não merecia isso. Eu estou aqui com você... Não me deixa!


“Quando eu vi você vindo em minha direção, com seu jeito de andar, com seus cabelos nos ombros, eu me encantei. Estava apaixonado...”


- Eu sei que a gente estava meio distante, mas eu nunca deixei de amar você. Me perdoa se eu muitas vezes não soube ser do jeito que você gostaria. Eu não estou agüentando ver você assim meu amor. Pára de brincadeira. Por favor! Por favor! Eu não estou agüentando!


“Eu gostei foi de beijar você. A sua boca gostosa. Fiquei com o pescoço doendo de tanto que fiquei na mesma posição”


- Como a vida pôde ser tão injusta! Se eu tivesse ficado mais um minuto aqui estaria junto de você, meu amor! Eu queria tanto ter ficado com você! O que vai ser de mim?


“Com você aprendi o que é amar. Você é a maior realização da minha vida. A minha maior vontade é dormir e acordar ao seu lado todos os dias.”


- Você lembra amor? Lembra dos nossos planos? Da nossa casa, dos nossos filhos, da nossa vida a dois? A gente planejou tanto isso... Não é justo você partir agora. Não faça isso comigo. Eu quero morrer com você!


“Ai Danilo! Você é louco mesmo de vir aqui para casa mesmo estando assim doente. Você está com febre. Deixa eu pegar um pano gelado para você.”


- Eu não me importava com nada. Não queria saber de faculdade, de trabalho, de nada! Eu só queria ter você ao meu lado. Estava disposto a tudo para ter você sempre juntinho de mim. E agora, Júlio? Você não pode me abandonar! Não agora...


“Caramba. A gente fez uma bagunça enorme no quarto. Consumimos tudo o que tinha no frigobar. A conta ficou caríssima. A gente é maluco mesmo.”


- Ai, ai... Sabe amor! A dor está muito grande. Eu nem sei como estou me agüentando aqui. Vendo você ai neste chão sujo. Com a cabeça toda suja de sangue. Você não era para estar aqui! Lembra que a gente ia sair hoje? Então, querido, vai colocar sua roupa. Vai se arrumar. Eu também comprei uma roupa bem bonita especialmente para você!


“Eu estou me sentindo culpado. Sentindo como se todo mundo tivesse me julgando. Até meus amigos estão contra mim. Estou me sentindo sufocado.”


“Eu nunca amei ninguém em tão pouco tempo. Você faz a minha vida ter mais sentido. Você me entende. Me completa. Me compreende. Se eu perder você acho que não sei se conseguiria viver.”


“Desculpa! Eu nunca ia esquecer de você. Você é tudo para mim! Eu te amo!”


“Eu sempre procurei alguém que entendesse o que diz o meu coração, hoje encontrei uma pessoa que não apenas sabe o que diz o meu coração, mas que o cuida, o mima e o alegra todos os dias.”


- A minha cabeça está a mil, amor! Todos os nossos bons momentos estão passando aqui agora. Você lembra da nossa música? Lembra? Responde? Ela está agora passando pela minha cabeça. E também aquele dia do ônibus que você me disse coisas tão bonitas. Ai meu deus! Por que eu preciso passar por isso? Por que esta dor é tão grande? Traz ele de volta! Amor! Canta comigo? Canta...


“E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar...”



Durante alguns minutos, Danilo esteve a chorar debruçado em Júlio enquanto nada mais importava. Só o seu amado e as lembranças da grande paixão vivida. O tão aclamado presente de “dias dos namorados” estava a alguns centímetros de Júlio. Danilo não sabia o porquê ele tinha o levado para o ponto. Não havia reparado. Porém, ele estava lá. Ainda bem enroladinho com um laço de fita cor de ouro e manchado de sangue. Era a prova viva do amor. Júlio morreu junto do que jamais gostaria de ter esquecido. Toda a relação vivida pelos dois.

Danilo não tinha perdido ninguém. Para ele tudo continuaria como antes. Júlio sempre estaria com ele. Em vida ou em morte ficariam juntos para sempre. Isto era uma promessa de ambos. Nunca se separarem. Danilo em um gesto tentando cumprir esta promessa deita de frente para Júlio. Com o presente entre eles, o abraça em meio a sangue e destroços, e ali permanece até a chegada da ambulância.


Post Scriptum:


Carta escrita por Danilo para ser enterrada junto ao corpo de Júlio.


Júlio.
Tenho tantas coisas para falar, mas não sei como começar. Você me conhece e sabe o quanto eu te amo. A minha vida está boa e ruim ao mesmo tempo. Boa porque sei que tenho sonhos, uma família, saúde e boa condição financeira. Ruim porque só com você é que tudo isso poderia fazer mais sentido. Todos os dias, antes de dormir, lembro dos bons momentos que passamos juntos. Toda vez que choro também antes de dormir (sempre antes de dormir!), me lembro de todas as coisas boas que fizemos juntos. De todas as brincadeiras, de todas as aventuras, de todos os perigos... Não choro de tristeza porque sei que você também me ama e está sempre comigo. Também não choro de alegria. Choro por ter saudade. A saudade dói muito. Sinto um vazio no meu peito tão grande que às vezes só adormecendo é que posso preenchê-lo com sonhos e esperanças. A vida é tão curta e imprevisível que sempre tive medo de perder você sem ao menos dizer ou você ter a certeza que TE AMO MUITO!. E disso eu não tenho dúvidas porque eu nunca tive este sentimento por ninguém e sei que é muito forte e presente. O que sinto por você é muito bom, é puro, é verdadeiro e não tem maldade. Você pode estar longe de mim, mas mesmo assim continuo te amando. Aliás, amando muito.
Eu quero e desejo todos os dias que a vida nos uma de novo porque você me fez muito feliz e eu me sentia muito bem com você. Tenho saudades do teu abraço, da sua boca, do seu beijo e do seu corpo encostado ao meu. Com você eu me sentia protegido, me sentia livre, me sentia como o vento que não tem barreiras a ultrapassar. Tenho saudades dos nossos momentos íntimos, de estar com você, de dormir junto com você, de sonhar com você. Tenho saudades também de chorar nos seus braços depois de você fazer declarações de amor para mim, pois sabia que te amava e que isso era recíproco. De tudo, o que tenho mais saudades era da sua capacidade de fazer com que eu me tornasse uma pessoa cada vez melhor a cada dia. Peço desculpas por tudo de errado que possa ter feito, mas saiba que sempre te amei e que minhas atitudes incompreensíveis nem eu entendia, pois estavam repletas de um sentimento que naquele momento era novo para mim – o AMOR!!

Danilo.




Letícia Vieira.